Task Force (TCFD): Impacto na transição energética e o gerenciamento de risco climático

As temáticas relacionadas às mudanças climáticas, risco climático e sustentabilidade nunca estiveram tão em alta como atualmente. De acordo com o Quadro das Nações Unidas sobre mudanças no Clima, para que tenhamos um futuro mais seguro e estável do ponto de vista ambiental, é necessário uma transição para uma economia de baixo carbono. Diversos encontros (COPs) e medidas vêm sendo tomadas por líderes mundiais para alcançar metas agressivas de redução de emissão de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera. Além disso, no ano de 2015, foi lançada a “Agenda 2030” com 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), que servem como um guia de ações, utilizados não só por países, como também estão inseridos na estratégia de diversas empresas brasileiras. Por outro lado, os últimos relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) apontam diversos impactos relacionados às mudanças climáticas, como por exemplo o aumento da frequência de eventos extremos a nível global e o aumento do nível médio do mar. Diante de tamanha responsabilidade, metas e compromissos com a humanidade, as empresas precisam se organizar e se preparar para fazer sua parte. Sendo assim, em vista de incentivar e orientar as empresas a divulgarem informações relacionadas ao risco climático no qual estão inseridas, foi criado o Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (TCFD).

O TCFD é uma força tarefa criada pelo Financial Stability Board (FSB) com o objetivo de desenvolver recomendações sobre os tipos de informações que devem ser divulgadas pelas empresas para dar suporte aos investidores na avaliação e precificação de um conjunto de riscos, sendo estes riscos relacionados às mudanças climáticas. A ideia por trás do TCFD é que cada vez mais empresas avaliem os riscos e oportunidades financeiras relacionados às mudanças climáticas, de modo que estes riscos sejam incorporados na gestão de risco e planejamento estratégico da companhia. Assim, as empresas e investidores vão entender melhor as implicações financeiras relacionadas à transição para uma economia de baixo carbono e também sobre os riscos físicos associados às mudanças climáticas, de maneira que consigam embasar melhor suas decisões, alocar capital de maneira mais eficiente e, consequentemente, se tornem mais resilientes frente às mudanças climáticas. 

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Para atingir tal objetivo, o TCFD criou diversas recomendações relacionadas a quatro grandes áreas temáticas, sendo: governança, estratégia, gestão de riscos, e métricas e metas. Desta forma, como podemos ver na figura 1, a governança precisa ter uma estratégia de consciência dos riscos climáticos para que estes possam ser monitorados, gerenciados e metrificados. Dentro destes quatro grandes temas, existem 11 recomendações que serão abordadas resumidamente a seguir.

Figura 1 – Estrutura das recomendações por área temática do TCFD (traduação livre).

Na temática de Governança, o TCFD recomenda descrever de maneira clara o papel do conselho administrativo da empresa na avaliação e gestão dos riscos e oportunidades relacionados ao clima. Com relação a Estratégia, é importante descrever os riscos e oportunidades que a empresa identificou no curto, médio e longo prazo, além de descrever também os impactos ao negócio do ponto de vista estratégico, financeiro e de planejamento. Também é recomendado entender a resiliência da empresa frente a diferentes cenários de projeções climáticas, incluindo um cenário de aquecimento de 2ºC ou menos. Com relação à Gestão de Risco, o TCFD recomenda que a organização descreva o processo de identificação e gerenciamento dos riscos relacionados ao clima e de que maneira estes processos estão integrados com a gestão de riscos global da empresa. Por último, no tópico de Métricas e Metas, as recomendações do TCFD são de descrever as métricas e metas da organização para gerenciar os riscos relacionados ao clima.

Mas e agora, como a empresa pode começar a pôr em prática tais orientações? Inicialmente, é importante que isso se torne um dos temas prioritários da empresa, de maneira que a mesma comece a analisar, planejar e criar estratégias que permitam conhecer os riscos e oportunidades climáticas que existem dentro do seu segmento de atuação. Além disso, não basta apenas conhecer tais riscos de maneira qualitativa, é necessário quantificar todos estes riscos. Ao analisar, por exemplo, o segmento de transmissão de energia, os principais riscos climáticos estão relacionados à ocorrência de descargas atmosféricas, queimadas, ventos fortes e erosão/afundamento do solo. Neste exemplo, pode-se por exemplo quantificar a ocorrência de queimadas e descargas atmosféricas ao longo da linha de transmissão, identificando por exemplo regiões com maior ou menor ocorrência destes fenômenos. No caso dos ventos intensos, pode-se calcular indicadores de frequência e de intensidade dos ventos fortes, caracterizando a região em função destes indicadores e ainda avaliar como será o comportamento do vento nas próximas décadas na região de interesse. Será que os eventos extremos estão mais frequentes na região onde estão os ativos da companhia? Será que tais eventos estão mais intensos? Quais são os principais eventos que podem ocorrer no futuro? Todas essas perguntas podem ser respondidas com a análise adequada dos dados meteorológicos e dos modelos de projeção climática.

Um exemplo de análise que pode ser feita é mostrado na figura 2 abaixo, onde é avaliado a mudança do tempo de retorno das chuvas para dois cenários de projeção climática, um mais otimista e outro mais pessimista. Ou seja, dados os cenários de projeção, a probabilidade anual da ocorrência de um evento de chuva de 100 mm está se alterando na região de interesse?

Figura 2 – Tempo de retorno da chuva máxima em 5 dias consecutivos para o período histórico e dois cenários de projeção climática (até 2050)

Por fim, é importante ressaltar que para o setor de energia os riscos não se restringem apenas ao aspecto físico e custos de manutenção. Destaca-se também o risco sob o aspecto regulatório, ou seja, o risco relacionado ao “menor consumo”, isto é, de acordo com o Plano Nacional de Eficiência Energética do MME, a meta é reduzir o consumo de energia elétrica para 10% até o ano de 2030, comparado com o ano de 2004. Isso pode impactar diretamente nos negócios da empresa, principalmente no setor de Distribuição e Transmissão de energia.

Neste aspecto, é importante ressaltar que a Climatempo possui grande expertise no gerenciamento de riscos climáticos. A Climatempo atua desde o levantamento de riscos climáticos atuais, monitoramento em tempo real e projeções futuras dos riscos ao negócio. Quando falamos em termos de projeções climáticas, a Climatempo trabalha com todos os modelos climáticos disponíveis, além de ranquear quais modelos são mais adequados para a região de interesse. Sendo possível ainda, rodar os modelos de projeções climáticas a nível regional para ter maior detalhamento das informações na região onde a empresa está inserida.

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Enel Brasil e Climatempo: Caracterização de extremos climáticos e o impacto na distribuição de energia

No Café com Ciência do mês de Abril, trouxemos alguns exemplos de como um olhar para o passado pode nos auxiliar no planejamento e na tomada de decisão com relação a energia eólica e solar. Neste mês, gostaríamos de abordar este tema do ponto de vista do setor de distribuição e transmissão de energia elétrica. Para isso, a Climatempo fez uma parceria com a Enel Brasil com o objetivo de avaliar as condições meteorológicas que impactam as áreas de concessão da empresa.

De maneira geral, pode-se dizer que o setor de distribuição de energia é mais afetado pela chuva, vento e descargas atmosféricas, enquanto que o de transmissão é mais afetado por descargas atmosféricas, vento forte e pelo material particulado que sai das queimadas. Juntamente com a Enel Brasil, a Climatempo analisou o histórico de raios, de queimadas, de chuva, rajadas de vento e também as interrupções de energia que são causadas por fenômenos ambientais sobre as áreas de concessão da empresa com o objetivo de entender quais eram as principais regiões de ocorrência destes fenômenos e qual sua intensidade.

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Na figura 1, podemos perceber o número de dias em que houveram chuvas e rajadas de vento acima do percentil 90 na última década no Ceará, ou seja, considerando apenas os eventos mais intensos que atingiram a área de concessão da empresa. Podemos perceber uma clara região no noroeste do estado onde a chuva acontece com mais frequência, ultrapassando 100 dias de eventos intensos na última década. Da mesma forma, podemos perceber regiões onde há menos dias com chuva intensa e rajadas de vento significativas.

Figura 1 – Número de dias com chuva e rajada de vento acima do percentil 90 entre 2011 e 2020.

Já para o caso de Goiás, avaliamos também a incidência de raios e queimadas no estado. A figura 2 mostra a ocorrência total de raios que atingiram o solo e a ocorrência de queimadas. Da mesma maneira que a chuva e rajadas de vento, podemos perceber duas principais regiões para a ocorrência de raios nuvem solo na área de concessão de Goiás, sendo no noroeste e no sul do estado. Enquanto que com relação a queimadas, percebe-se uma maior ocorrência no nordeste e parte do sudeste do estado.

Figura 2 – Densidade de raios nuvem solo e queimadas no estado de Goiás.

Além da caracterização espacial da ocorrência destes fenômenos, também foi avaliado a evolução temporal dessas variáveis, verificando se o clima está se alterando na região das áreas de concessão da Enel e quais são as regiões que estão sendo mais afetadas.

Este tipo de estudo é interessante em diversos aspectos. O primeiro deles é em termos de planejamento, onde a empresa conhece as regiões mais impactadas e pode estruturar ações para mitigação destes impactos. Da mesma maneira, estas informações servem como guia para a empresa direcionar seus investimentos, melhorando a infraestrutura da rede nas regiões de maior atenção, podendo inclusive procurar novas tecnologias que auxiliem na diminuição dos impactos. Com a melhora da rede, a empresa também se torna mais resiliente às perturbações atmosféricas e melhora os indicadores de continuidade, como por exemplo o DEC (Duração Equivalente de Interrupção por Consumidor) e o FEC (Frequência Equivalente de Interrupção por Consumidor).

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Créditos de Carbono e Mudanças Climáticas: uma abordagem Climatempo & Carbonext

Os dias de calor intenso estão cada vez mais comuns e a ocorrência de eventos extremos, principalmente de chuva, são mais e mais frequentes, o que evidencia os sinais das MUDANÇAS CLIMÁTICAS. De maneira simplificada, as mudanças climáticas se tratam da mudança de temperatura da Terra que vem sendo intensificada e acelerada através do aumento de emissões antrópicas dos GASES DE EFEITO ESTUFA, como por exemplo pela queima de combustíveis fósseis e a ocorrência de queimadas.

No Brasil, o desmatamento da Amazônia é o principal responsável pelo alto nível de emissão de carbono, gás que contribui para o efeito estufa. Como funciona exatamente? Lembramos das aulas de biologia no colégio, que árvores acumulam carbono em seus troncos e raízes conforme crescem, de forma que grandes florestas, como a Amazônia, se tornem grandes estoques de carbono. Acontece que, o desmatamento contribui para que todo este carbono seja liberado e, consequentemente, contribui para um aumento na concentração do carbono na atmosfera, o que dificulta a saída do calor do planeta, intensificando o efeito estufa.

Não existirão apenas dias mais quentes, mas várias MUDANÇAS CLIMÁTICAS associadas! Como por exemplo, a elevação do nível dos oceanos, declínio na produção de alimentos decorrente da mudança do clima local, savanização da Amazônia, região semi-árida no Nordeste brasileiro se tornando árida e comprometendo a recarga dos lençóis freáticos, entre outros.  

Diante deste evidente problema, vários acordos a nível internacional vêm sendo realizados para diminuir a emissão dos gases do efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono (CO2). O Protocolo de Kyoto (ratificado em 2005) foi o primeiro grande marco como medida para evitar os efeitos nocivos dos gases de efeito estufa. De maneira geral, os países passaram a ter uma meta de limite de emissão de CO2 e, aqueles que emitissem menos do que seus limites estabelecidos poderiam então vender essa ‘cota excedente’ para países que não atingissem seus objetivos, dando início ao chamado CRÉDITO DE CARBONO. 

Inicialmente o crédito de carbono estava inserido apenas no âmbito de compensação entre países, no entanto, o assunto atingiu tamanha dimensão que a busca por créditos de carbono passou a ganhar igual relevância no meio empresarial. A procura não regulamentada por créditos configura o mercado voluntário de carbono, que surgiu para atender a demanda de empresas, entidades e até mesmo indivíduos que voluntariamente decidem neutralizar suas emissões. 

E o que exatamente significa um crédito de carbono?

De uma maneira direta podemos dizer que uma unidade de crédito de carbono corresponde à uma tonelada de CO2 que foi deixada de ser emitida ou removida da atmosfera. Para dimensionar essa quantidade, vamos imaginar, por exemplo, uma ação ou atividade qualquer na qual ocorram emissões de gases de efeito estufa ao longo de seus processos industriais. Se houver medidas possíveis de serem aplicadas de forma a reduzir a emissão ao longo desses processos ou ainda, que removam CO2 da atmosfera, elas devem ser aplicadas. Em seguida, é preciso quantificar essa emissão ou remoção evitada e, por sua vez, padronizá-las em CO2 equivalente. Ou seja, converter o potencial de aquecimento de todos os GEE que foram compensados através dessas ações em relação ao CO2, tendo assim a unidade de medida padronizada. Por fim, após sabermos a quantidade que essa atividade está deixando de emitir ou removendo da atmosfera, temos a quantidade de créditos de carbono que essa atividade pode gerar.

No entanto, não basta apenas uma ação ou medida aplicada ter mecanismos para evitar emissão ou facilitar o sequestro de carbono da atmosfera, essa ação tem que se provar adicional. Aqui entra talvez o ponto mais importante a ser considerado no processo de geração de créditos: a adicionalidade. 

Uma ação adicional é aquela que não ocorreria na ausência de um projeto de carbono, ou seja, se a ação continuasse se desenvolvendo no modelo business-as-usual, sem intervenções com objetivo de sequestrar ou reduzir emissões, ela geraria o mesmo saldo positivo de emissão de carbono para atmosfera. Por exemplo, se um projeto é viável por si só, seja através da venda de seus produtos, bancado por algum fundo, ou ainda devido a obrigatoriedade legal, nesse caso, mesmo que o projeto leve a uma redução das emissões de GEE ele não pode ser considerado um projeto adicional, com potencial geração de créditos para compensação. O projeto iria ocorrer independentemente de um investimento assegurado através do mercado de carbono, não se configurando assim como uma ação que traga um ganho a mais para as questões climáticas pela atuação do mercado de créditos. É a adicionalidade presente em um projeto que permite que ele gere créditos de carbono.

E economicamente, como é visto um crédito de carbono?

Na prática, o crédito de carbono nada mais é do que um ativo intangível, ou seja, um bem econômico, um recurso, que pode ser amplamente comercializado. Assim como outros ativos, o crédito de carbono é produzido para atender um fim específico. Cada crédito de carbono gerado possui um registro, um código único e, quando esse crédito é vendido para compensar a emissão de alguma empresa ou indivíduo, ele é ‘aposentado’ e deixa de existir, garantindo assim que seja contabilizado para compensação apenas uma vez. Sua comercialização permite canalizar recursos para o gerador do crédito, assegurando o desenvolvimento dos projetos. É esse mecanismo que permite levar recursos para proporcionar os ganhos ambientais e sociais onde os projetos de carbono são desenvolvidos. 

           Nos últimos anos, a busca voluntária pela compra de créditos de carbono aumentou a demanda por empresas capacitadas que tivessem o know-how para atuação nos projetos de geração de créditos. Visando atender essa necessidade do mercado e auxiliar na preservação e proteção da Floresta Amazônica, a Carbonext nasce em 2010, em uma época em que a temática do carbono não era valorizada e entendida como acontece nos dias de hoje. A empresa trabalha não somente na neutralização das emissões de gases do efeito estufa, como também é uma das principais companhias no Brasil responsáveis pela originação de créditos de carbono florestais através de projetos REDD+, com aproximadamente 2 milhões de hectares sob proteção. Esses projetos evitam o desmatamento e, consequentemente, reduzem as emissões que seriam lançadas na atmosfera, gerando créditos de carbono para comercialização. 

A companhia atende tanto pessoas jurídicas como físicas. Hoje, qualquer pessoa pode acessar a plataforma da Carbonext e, após algumas perguntas a respeito de sua rotina (entender como você se locomove para o seu trabalho, por exemplo), é realizada a mensuração da pegada de carbono e uma assinatura para compensação pode ser feita. Para pessoas jurídicas, a empresa entende a real necessidade do cliente, sempre buscando mitigar o que não pode ser reduzido. Alguns exemplos claros são grandes players do mercado como Uber e Buser, onde entende-se a pegada de carbono de cada uma das viagens e o consumidor final tem a opção de ter as emissões do seu trajeto neutralizadas. 

Outra frente de atuação é entender a pegada de carbono dentro da avaliação de ciclo de vida de um determinado produto, como foi feito com a Casa Valduga, onde foi neutralizada uma linha inteira de vinhos. A empresa também entra na mensuração da pegada de carbono da parte operacional de fábricas e escritórios, considerando as emissões dentro de um determinado período (ano ou mês) para depois partir para neutralização. Também se desenvolvem projetos exclusivos para as empresas, estruturados de acordo com a necessidade de cada uma delas.

Mas quais são os benefícios reais da compensação de emissões?

O fortalecimento do mercado de crédito de carbono traz diversas vantagens para o meio ambiente. Considerando o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) (2022), ficou claro que nós, como sociedade, devemos buscar soluções efetivas, escaláveis e rápidas, para lidarmos com os impactos das mudanças climáticas. Segundo o relatório, além das mudanças previstas para o futuro, já estamos hoje lidando com as consequências desse desequilíbrio. Nesse contexto, o mercado de créditos de carbono se coloca como uma oportunidade pioneira de incentivar investimentos em projetos de sustentabilidade e de descarbonização dos processos industriais. 

Para as empresas, os benefícios da compra dos créditos vão além da questão reputacional considerando o mercado voluntário. Ao comprar créditos de carbono florestais, por exemplo, contribuem com a manutenção da biodiversidade, preservação da qualidade dos solos, garantia de disponibilidade e qualidade hídrica, desenvolvimento das comunidades tradicionais, entre tantos outros. Essa possibilidade de aplicação de recursos em projetos ambientais é uma ferramenta para que possamos cada vez mais atuarmos em projetos não só de recuperação, mas também de preservação e, assim, contribuir com o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono.

É válido ressaltar que, apesar do crédito de carbono fomentar grandes avanços na busca por uma sociedade mais sustentável, ele não é o único nessa jornada. A busca para diminuir nossas emissões é fundamental nesse processo, assim como recuperar áreas degradadas e desenvolvermos tecnologias de baixo carbono nos mais diversos âmbitos da sociedade. O crédito de carbono serve como um incentivo financeiro e é uma das portas de entrada para a construção de uma sociedade que integre a modernidade com o equilíbrio natural, na busca por uma forma de vida cada vez mais harmônica.

E o setor de energia? Como colabora?

Recentemente, o IPCC divulgou a terceira parte do sexto relatório sobre mudanças climáticas apresentando possíveis soluções que podem e DEVEM ser colocadas em ação. Dentre as iniciativas, destaca-se o incentivo para que as maiores reduções de emissões globais venham a partir da transição para uma matriz elétrica limpa e renovável, com foco em geração eólica e solar. O relatório apontou que, em escalas maiores, a implantação de energia solar em telhados de prédios reduz a demanda de energia para resfriamento do planeta em 12%, além de também reduzir a ilha de calor urbana, trazendo benefícios à saúde. 

Além disso, as empresas no ramo de energia estão cada vez mais buscando promover o consumo e a geração eficiente. Como por exemplo, a Neonergia, que traz em sua Política de Ação Climática, o compromisso de situar a intensidade das emissões abaixo dos 50 gramas de CO2 por kWh gerado no ano de 2030, visando alcançar a neutralidade em carbono no ano 2050. Desta forma, em 2021, apresentou um relatório robusto e com resultados muito positivos no processo de diminuição das emissões, indicando que entre 2018 e 2020, a intensidade de emissões por geração de energia recuou de 72,9 gCO2 / kWh para 53,37 gCO2 /KWh. 

Seja por incentivo governamental ou consciência ambiental, a expectativa é de sejam tomadas medidas que minimizem a emissão de gases do efeito estufa e, que a busca por créditos de carbono sejam ainda maiores a fim de diminuir em 45% as emissões até 2030 e evitarmos a elevação de 3° Celsius (temperatura média do plano). Para tanto, o setor de energia se encontrará caminhando para uma transição energética, promovendo o crescimento exponencial das matrizes eólica e solar.

Já pensou em gerar sua própria energia? (Parte 2)

Introdução:

Para facilitar e garantir conhecimento mais claro sobre as oportunidades de gerar sua própria energia em casa, iremos dar continuidade no especial mensal de solar, mas dessa vez explicando um pouco mais sobre as questões legislatórias e como isso impacta para você que quer implantar placas solares em casa. No último especial mensal foi abordada a possibilidade da geração de energia independente apresentando a energia solar fotovoltaica como opção. A partir desta temática foram apresentados alguns conceitos e questões legislativas, como: micro e minigeração, REN 482, lei n° 14300 e a expectativa futura para o setor.

No especial mensal de fevereiro daremos continuidade nessa temática apresentando como a alteração da lei afetou o retorno deste investimento e aprofundaremos na modalidade off-grid (não conectada à rede e utilizando baterias).

Com a nova lei, como ficou o retorno do meu investimento?  

Como já apresentado em janeiro, o marco legal da geração distribuída (Lei 14.300) traz regras de transição para cobrança de encargos de uso dos sistemas de distribuição, alterando aos novos usuários o tempo de retorno deste investimento. 

Os novos consumidores de energia solar que solicitarem a entrada no sistema a partir de janeiro de 2023, passarão a pagar 15% dos custos associados à energia elétrica, sendo que este percentual sofrerá alterações graduais ao longo de 6 anos (processo de transição), tornando-se mais elevado conforme tabela. 

AnoPercentual associado à energia elétrica que deverá ser pago
202315%
202430%
202545%
202660%
202775%
202890%

De acordo com a lei, àqueles consumidores que não estão isentos dos encargos até 2045* deverão pagar um valor mínimo de tarifa mesmo que o consumo de energia seja baixo durante o mês. As bandeiras tarifárias vão incidir somente sobre o consumo a ser faturado, e não sobre a energia excedente usada para compensar o consumo. 

Hoje, o tempo de retorno financeiro é de cerca de 5 anos para um investimento de 30 anos, contudo, a partir da aprovação desta lei sabe-se que o tempo de retorno será afetado negativamente. Entretanto, acredita-se que ainda é vantajoso optar pela geração independente, principalmente mantendo a mentalidade de retorno a longo prazo.   

*Conforme apresentado no especial mensal de janeiro, estão isentos àqueles consumidores que solicitarem a entrada no sistema até 12 meses depois da aprovação da lei 14300.

Tem como otimizar meu tempo de retorno?  

Essa é uma ótima pergunta pois, conforme já apresentado, existem os sistemas não conectados à rede, chamados: sistemas autônomos ou off grid. Neste caso, não há dependência com a concessionária, portanto, não há a cobrança dos encargos associados ao uso das distribuidoras. 

Entretanto, para ser um sistema independente da rede de distribuição é necessário armazenar a energia excedente em algum local para ser utilizada no período noturno ou de pouca geração e, atualmente, essa forma de armazenamento é em bateria.

Sistema Off-grid: um aliado? 

Em meio às incertezas no setor desde a aprovação da Lei 14 300, os olhos se voltaram aos sistemas off-grid. Isso porque é autônomo e livre de encargos. Contudo, alguns pontos devem ser considerados, como:

  1. Custo de instalação e manutenção mais elevado em relação ao sistema on grid (exige um investimento elevado de 7 em 7 anos devido a necessidade da troca das baterias);
  2. Apresenta menor eficiência energética;
  3. As baterias têm uma capacidade limitada de armazenamento de energia;
  4. Causa impactos ao meio ambiente por ser dependente de baterias, uma vez que ainda são comumente utilizadas baterias similares às de carro;

Existe a possibilidade de optar por um sistema híbrido?

Sim, os chamados Nobreak Solar. Este é um sistema configurado para armazenar a energia solar em baterias, mas também está conectado à rede elétrica. Ou seja, o sistema híbrido automaticamente prioriza o uso da eletricidade armazenada nas baterias. Ele é mais barato que o sistema off grid por utilizar uma quantidade menor de baterias e é mais seguro, pois mantém o sistema ligado à rede. Entretanto, justamente por estar ligado à rede, mantém a dependência e sofre cobrança de alguns encargos.

Figura  1 – Sistema Híbrido Solar (fonte: Oca Solar Energia)

Vamos à revisão?

  1. On-Grid: você produz sua própria energia elétrica e disponibiliza o excedente na rede, permitindo que você ganhe créditos de energia para serem usados em momentos de baixa ou nenhuma geração e tem um custo inicial mais barato. Entretanto, sofrerá a cobrança de encargos a partir de 2023 aos consumidores não isentos.
  2. Off-Grid: você produz sua própria energia elétrica e a armazena em baterias, ou seja, você é independente e autônomo. Nesse caso, você não está sujeito à cobrança dos encargos, contudo, o investimento inicial e a manutenção são mais caros e o armazenamento de energia é limitado.
  3. Híbrido: você produz sua própria energia elétrica e a armazena em baterias, além de estar conectado na rede. Esta opção traz muita segurança, tem um custo de investimento inicial e de manutenção menor que a off-grid, mas mantém a dependência à rede e segue sujeito à cobrança de encargos.

Qual é a melhor opção?

Depende dos seus objetivos. Cada um dos sistemas citados possuem uma aplicação, um investimento e o retorno associado. Independente da opção escolhida, o setor de energia solar vem crescendo de forma exponencial, estudos indicam que o custo das placas solares vem diminuindo de de forma escalável (Figura 2) ao longo dos anos, isso favorece a percepção de democratização deste tipo de tecnologia e garante melhores condições de investimento ao passo que as baterias também estão ficando mais eficientes e com um custo cada vez menor.

Figura  1 – Custo das Placas Solares ao Longo dos Anos  (fonte: DOE NREL Solar Market Report)

Referências   

Cadernos Temáticos ANEEL – Micro e Minigeração Distribuída Sistema de Compensação de Energia Elétrica, 2016. 2a edição. Brasília – DF.

Empresa de Pesquisas Energéticas, 2021. Estudos do Plano Decenal de Expansão de Energia 2031 – Micro e Minigeração Distribuída & Baterias

Canal Solar. Com PL 5829 aprovado, o foco volta a ser ANEEL. Disponível em: https://canalsolar.com.br/com-pl-5829-aprovado-foco-volta-ser-a-aneel/
Portal Solar. Microgeração de Energia Solar. disponível em: https://www.portalsolar.com.br/microgeracao-de-energia-solar.html

Resiliência no setor elétrico e o impacto das mudanças climáticas

Um tema que vem sendo amplamente discutido atualmente é a capacidade de uma rede elétrica sofrer uma perturbação e se recuperar rapidamente, ou seja, ser resiliente frente às adversidades operacionais. Tais atividades estão fortemente relacionadas à ocorrência de eventos extremos meteorológicos, visto que são fenômenos com grande parcela na causa de interrupções forçadas por longos períodos de tempo, quedas de torres e até destruição de habitações. Em vista disso, cada vez mais as empresas do setor de energia realizam estudos relacionados a ocorrência destes eventos extremos com o objetivo de melhorar os investimentos na resiliência da rede, manter a excelência no fornecimento de energia para a população em geral e reduzir de maneira geral os custos de manutenção.

De acordo com o país considerado, o conceito de resiliência é tratado de forma diferente, porém, de maneira geral este tratamento gira em função da rede elétrica sofrer uma perturbação e recuperar seu total funcionamento. Na figura 1, pode ser visto o trapézio de resiliência de acordo com o trabalho de BIE et al. (2017). De acordo com o autor, a resiliência está na capacidade da rede elétrica de antecipar, resistir, absorver, responder e se adaptar para a melhor recuperação possível da perturbação causada pelo evento de alto impacto, seja ele meteorológico ou não. Desta maneira, é importante observar que um sistema resiliente sofre um menor impacto, possui uma recuperação mais rápida e um funcionamento mais eficiente posterior ao final do evento. Porém, é importante mencionar ainda que mesmo após o final do evento, o funcionamento da rede não volta ao seu estado original devido a problemas de infraestrutura que persistem após a recuperação da rede.

Figura 1 – Trapézio de resiliência considerando que a infraestrutura da rede não retorne da maneira original posteriormente ao evento. 
Fonte: Adaptado de BIE et al. (2017)

Os estudos de resiliência realizam um levantamento dos principais fatores que possuem potencial de causar algum tipo de dano à estrutura da rede elétrica. Neste contexto, podemos destacar os eventos de alto impacto e baixa frequência, ou seja, eventos que são raros e não planejados, mas quando acontecem são capazes de causar danos generalizados ou até catastróficos. Além disso, estes eventos podem acontecer muito rapidamente e atingir sua intensidade máxima com pouca sinalização prévia de risco iminente. Desta maneira, estudos de identificação dos principais eventos que causam danos à rede são importantes para que a empresa conheça estas causas e comece a planejar como se preparar para a ocorrência futura destes eventos. A partir deste planejamento e com uma estratégia efetiva, a empresa começa a se tornar mais resiliente.

Como exemplo de eventos de alto impacto e baixa frequência podemos citar a ocorrência de micro explosões atmosféricas, ciclones extratropicais explosivos, tempestades intensas, entre outros. Um caso significativo foi o que aconteceu no dia 30 de junho de 2020 no Sul do Brasil, onde um ciclone extratropical intenso se formou sobre a região e fez com que mais de 4 milhões de unidades consumidoras tivessem sua energia interrompida nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, foram necessários vários dias para a recomposição total do sistema. E aqui ficam duas perguntas, quando este tipo de evento poderá ocorrer novamente? Como será o comportamento destes eventos frente às mudanças climáticas? 

De acordo com o último relatório do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), lançado em agosto de 2021, os cenários futuros indicam que os eventos meteorológicos extremos deverão ser cada vez mais comuns em decorrência do aquecimento global e consequentemente das mudanças climáticas. Desta maneira, é importante que os estudos de resiliência das redes levem em consideração os eventos extremos meteorológicos, tanto do ponto de vista histórico como de projeções futuras. Assim, avaliando os riscos atuais associado a eventos meteorológicos, os períodos de retorno dos eventos e também o impacto das mudanças climáticas do ponto de vista local. Desta forma, é possível antecipar e se preparar adequadamente para os futuros eventos.De maneira geral, quando se entende os impactos causados pelos eventos citados anteriormente e também onde tais eventos ocorrem com maior frequência, é possível lidar adequadamente com os riscos físicos e financeiros que ocorrem devido a incerteza do tempo e do clima. Desta maneira é possível fazer investimentos com maior custo benefício, gerar uma redução de custos com manutenção da rede elétrica e garantir uma maior qualidade no fornecimento de energia.

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Referências

Masson-Delmotte, V., P. Zhai, A. Pirani, S. L. Connors, C. Péan, S. Berger, N. Caud, Y. Chen, L. Goldfarb, M. I. Gomis, M. Huang, K. Leitzell, E. Lonnoy, J.B.R. Matthews, T. K. Maycock, T. Waterfield, O. Yelekçi, R. Yu and B. Zhou. IPCC, 2021: Summary for Policymakers. In: Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge University Press. In Press.
BIE, Z.; LIN, Y.; LI, G.; LI, F. Battling the extreme: A study on the power system resilience. Proceedings of the IEEE, v. 105, n. 7, p. 1253-1266, 2017.

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ZCAS: heroína ou vilã?

O que é a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS)? 

O Brasil viveu este ano uma das maiores crises hídricas registradas e recentemente muito tem se comentado sobre o início da estação chuvosa e a importância deste período frente ao cenário atual. Desta maneira, um importante sistema de precipitação que ocorre durante esta época do ano é a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Este sistema consiste em uma faixa de nebulosidade estacionária orientada de Noroeste para Sudeste (NW-SE) que se estende por milhares de quilômetros, podendo abranger uma posição mais a sul ou mais a norte em relação à média, que normalmente alcança desde a Amazônia até as regiões Centro-Oeste e Sudeste quase por completas. Quando posicionada mais ao sul que o normal pode incluir os estados do Paraná e Santa Catarina, enquanto que mais a norte influencia o oeste da Bahia e o sul do Piauí e do Maranhão. Sendo mais frequente e bem configurada entre o final da primavera e o verão do Hemisfério Sul (Quadro et al., 2016), mais rara nos meses de outono e inexistente no período de inverno (Nobre, 1988).

Figura 1 – Representação da Zona de
Convergência do Atlântico Sul (ZCAS)
Fonte: Climatempo

Há um grande interesse no entendimento e na previsão da ocorrência desse sistema por parte de profissionais de diversos setores, principalmente por estar associado a chuvas intensas e persistentes, podendo ocasionar enchentes e deslizamentos de terra como ocorreu no Rio de Janeiro, Petrópolis e Teresópolis em 2011. Assim como em anos atípicos com ausência da ZCAS, como no verão de 2014 e 2015, que favoreceu uma condição de seca extrema no Sudeste, contribuindo para a crise hídrica.

Formação e tempo de duração da ZCAS

 A formação da ZCAS é resultado da interação de diferentes sistemas que atuam simultaneamente. Na Amazônia brasileira, a inter-relação entre a floresta e a atmosfera através de processos de liberação de calor latente, e ainda em níveis altos, temos também o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis do Nordeste Brasileiro (VCAN-NeB) (Nery, 2005), sistema responsável pela formação de nebulosidade em suas bordas e céu claro em seu centro. Em níveis médios da atmosfera (cerca de cinco mil metros de altitude) ocorre a formação de um cavado atmosférico (região alongada de baixa pressão atmosférica) (Nery, 2005) que também é associado a tempestades severas que ajudam a manter a ZCAS ativa. Por fim, em níveis mais baixos (mais próximos da superfície) temos o corredor de umidade, o Sistema de Monções da América do Sul (SMAS) e as entradas de Sistemas Frontais (Frentes Frias) pelo Sul do Brasil (Nery, 2005).

Todos esses eventos meteorológicos auxiliam no transporte da umidade que abastece essa zona de convergência, o corredor de umidade transporta a umidade da Amazônia em direção a região Sul, Sudeste e Centro do Brasil, atuando ao leste dos Andes, os SMAS transportam a umidade em direção ao continente assim como as Frentes Frias que também transferem a umidade do oceano para o continente através da formação de tempestades contribuindo para a manutenção da ZCAS.

Figura 2 –  A ZCAS e os sistemas que auxiliam na sua formação. Fonte: Tempo e Clima Brasil.

O tempo de persistência e suas características de atuação se associam a outros fenômenos meteorológicos, os quais influenciam na sua posição e intensidade. Em média, sua duração costuma ser de sete dias, mas pode variar entre 4 e 10 dias.

Mudanças no comportamento da ZCAS

Como visto anteriormente, a estrutura da ZCAS depende diretamente das condições de outros sistemas meteorológicos e oceânicos. Portanto, as mudanças climáticas são capazes de alterar a localização e intensidade da ZCAS e consequentemente, o seu impacto no setor de energia.

Estudos como o de Zilli et al. (2018) analisa e quantifica o impacto das alterações climáticas na ZCAS, os autores identificaram o deslocamento da ZCAS para sudoeste (Figura 3), devido principalmente ao enfraquecimento da circulação da Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) e intensificação da Baixa do Chaco.

Figura 3 – Esquema com as alterações no posicionamento dos principais sistemas relacionados a ZCAS (ZILLI et al., 2018).

O deslocamento destacado acima compara o posicionamento da ZCAS entre os anos de 2005 a 2014 com a posição climatológica (1979 a 2004). No qual, as áreas tracejadas indicam a posição climatológica e as áreas com linhas contínuas indicam o novo posicionamento. 

Esta alteração na posição pode afetar principalmente o período úmido no sudeste do país, um dos períodos de maior importância para a manutenção dos reservatórios dessa região.

Impacto no setor de energia

Esse sistema está entre um dos principais fenômenos reguladores do tempo e do clima no Brasil, e durante o seu período de atuação (novembro a abril) afeta diretamente a geração e distribuição de energia elétrica principalmente na região Sudeste.

No setor hidrelétrico interfere incrementando o volume e a intensidade da chuva em algumas regiões brasileiras em que se localizam alguns dos reservatórios de água do SIN (Sistema Interligado Nacional). Desta maneira, quanto maior a quantidade de chuva que ocorre sobre os reservatórios das usinas, maior é o nível dos reservatórios e mais energia aquela usina poderá gerar de acordo com sua capacidade total. Isto pode ser observado na figura 4, onde conseguimos observar que os máximos de geração de energia acompanham os períodos de máxima precipitação, da mesma maneira que os mínimos de geração acompanham os períodos mais secos. 

Quando falamos em geração de energia eólica, a formação de sistemas precipitantes como a ZCAS altera o regime de ventos na região tanto em questão da direção quanto na magnitude. Consequentemente, por conta dessa variação dos ventos, as usinas acabam gerando menos energia. Na figura 4, pode-se observar que os máximos de produção eólica ocorrem justamente quando há o período de menor chuva no Brasil, mantendo o regime de ventos mais próximos da climatologia da região. É interessante notar que os menores valores de geração eólica ocorrem nos meses da estação chuvosa também. No entanto, não podemos relacionar diretamente a ZCAS com esta geração, uma vez que grande parte dos parques eólicos estão instalados na Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte, onde há baixa frequência de ZCAS e maior ocorrência de fenômenos como o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN) – sistema associado a configuração da ZCAS – ou ainda a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).

Já na categoria de energia solar, ela ocasiona aumento ou diminuição dessa produção em função da variação da nebulosidade em áreas de manufatura dessa modalidade, quanto maior a fração de nuvens no céu, maior será a área de sombreamento dos painéis e menor será a produção dessa energia. Na figura 4, observa-se a geração solar entre 14 e 31 de dezembro de 2020 em Minas Gerais e pode-se notar que a menor geração ocorreu durante o período de ocorrência da ZCAS. É interessante ressaltar que nos períodos que antecedem oficialmente o início da ZCAS já ocorre o aumento de nebulosidade em função do avanço da frente fria – sistema associado a configuração da ZCAS – e por isso a geração de energia já começa a diminuir.

Figura 4 – Geração mensal de energia hidrelétrica, eólica e solar e a precipitação média mensal sobre as principais bacias do Brasil entre 2016 e 2021. Fonte: dados do ONS e de precipitação do merge do CPTEC.

Como pudemos perceber, a ZCAS pode ser heroína ou vilã, dependendo da região que está atuando e da modalidade de energia que está sendo gerada, porém, levando em consideração nossa matriz energética atual, a ZCAS costuma vir como uma solução ou um alívio para períodos de crise hídrica semelhantes ao que estamos presenciando atualmente.

Bibliografia:

Climatempo. O que é a ZCAS e como este sistema se forma. Site. Disponível em: <https://www.climatempo.com.br/noticia/2020/01/29/o-que-e-a-zcas-e-como-este-sistema-se-forma-1565>, 2020.

Nery, Jonas Teixeira. Dinâmica climática da região Sul do Brasil. Revista Brasileira de Climatologia, Vol. 1, nº 1. Disponível em: <ttps://core.ac.uk/download/pdf/328075774.pdf>, 2005.

Nobre, C. A.. Ainda sobre a Zona de Convergência do Atlântico Sul: a importância do Oceano Atlântico. Climanálise, v. 3, n. 4, p. 30-35, abr. 1988.

Quadro, Mario Francisco Leal de; Pezzi, Luciano Ponzi; Rosa, Eliana Bertol. O Climanálise e o monitoramento da ZCAS nos últimos 30 anos. Boletim Climanálise. Disponível em: <http://climanalise.cptec.inpe.br/~rclimanl/revista/pdf/30anos/quadroetal.pdf >, 2016.

Tempo e Clima Brasil. O que é a ZCAS e qual sua influência no Brasil. Site. Disponível em: <https://www.tempoeclimabrasil.com/post/o-que-e-a-zcas-e-qual-sua-influencia-no-brasil>, 2021.

ZILLI, Marcia T.; CARVALHO, Leila MV; LINTNER, Benjamin R. The poleward shift of South Atlantic Convergence Zone in recent decades. Climate Dynamics, v. 52, n. 5, p. 2545-2563, 2019.

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Autor:

Ana Luiza Dors Wike | Meteorologista

Co-autores:

Patrícia Madeira | COO da Climatempo

Vitor Hassan | Head of Energy

Rafael Benassi | Meteorologista – Setor elétrico

Luciano Ritter | Meteorologista – Setor elétrico

Lara Marques | Meteorologista – Setor elétrico

La Niña a bordo: Qual o impacto no setor de Energia?

Seja bem-vindo a bordo da La Niña. Para entender como o fenômeno pode impactar a geração de energia, nossa primeira parada será no oceano Pacífico onde o El Niño Oscilação Sul (ENOS) se forma. 

O ENOS é um fenômeno de grande importância para a Meteorologia por se tratar de um fenômeno de teleconexão, isto é, impacta as condições de tempo e clima em várias regiões do globo (CAI et al., 2020). O ENOS envolve a interação entre dois componentes: o oceano e a atmosfera. A parte oceânica é chamada de La Niña (El Niño) e envolve o resfriamento (aquecimento) anômalo das águas do oceano Pacífico tropical central e leste. Já a componente atmosférica refere-se à diferença de pressão entre Darwin (norte da Austrália) e Tahiti (ilha no Pacífico central), que está associada ao deslocamento das células de circulação de Walker (TIMMERMANN et al., 2018).
No dia 14 de outubro, o Climate Prediction Center (CPC) confirmou que já estamos a bordo da fase fria do ENOS, a La Niña, e que esta persistirá para os próximos meses. Essa informação é importante para entender os impactos do fenômeno na qualidade do próximo período chuvoso (verão de 2022), uma vez que o fenômeno afeta a circulação atmosférica e os sistemas de precipitação (GRIMM, 2004; CAI et al., 2020).

Na figura 1, são mostrados os tipos de La Niña, onde o resfriamento das águas pode se concentrar no Pacífico tropical leste (Canônica), próximo a América do Sul, ou no Pacífico tropical central (Modoki). Além disso, pode-se observar as anomalias de precipitação na América do Sul nos meses de verão (Dezembro, Janeiro e Fevereiro) em cada um dos casos. Na La Niña Canônica, anomalias negativas (positivas) de precipitação são observadas principalmente sobre a região Sul e Centro-Oeste (o norte da região Norte, nordeste da região Sudeste e no estado do Rio Grande do Norte) do Brasil. Por outro lado, na La Niña Modoki as anomalias negativas (positivas) são verificadas principalmente sobre as regiões Central e Nordeste do Brasil (Norte).

a) La Niña Pacífico Leste ou Canônica
b) La Niña Pacífico Central ou Modoki
Anomalia de Precipitação (mm/dia)
Fonte: Adaptado de Tadeschi et al. (2012).

Agora que já navegamos no oceano Pacífico e vimos como a La Niña pode afetar a precipitação na América do Sul, vamos atracar no setor de energia para entender como ele pode ser afetado. 

Desde a crise hídrica de 2014-2015 na região Sudeste, os reservatórios ainda não se recuperaram e suas consequências no abastecimento e geração hídrica são sentidas até os dias de hoje. Para a recuperação dos reservatórios, são necessárias estações chuvosas de qualidade, isto é, uma estação com alto volume de chuva bem distribuída temporal e espacialmente. 

Em uma fase de La Niña, a expectativa é que a geração hídrica no Sul do país seja afetada negativamente, principalmente em episódios canônicos, dada a possível redução da precipitação e, consequentemente, do abastecimento dos rios e reservatórios. Já nos episódios Modoki, espera-se que a geração hídrica seja afetada negativamente nas regiões Central e Sudeste do Brasil, podendo até afetar o padrão de convergência de umidade da região (GRIMM, 2004).

A geração eólica no Nordeste do país, região onde se encontram os principais parques eólicos, é afetada em anos de La Niña quando o potencial eólico na região sofre redução, isto porque a velocidade do vento diminui devido a mudança na circulação atmosférica (OLIVEIRA, 2007; ARAÚJO, JÚNIOR et al., 2014). 

Em condição de La Niña, espera-se que a geração solar seja favorecida em regiões com redução da precipitação, como as regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. Isto porque, com menor nebulosidade, mais radiação incide sobre as placas solares. Por outro lado, em regiões como Minas Gerais, estado que lidera o ranking de potência de geração solar instalada, o tipo de La Niña pode fazer muita diferença para a geração, isto é, espera-se que na La Niña Canônica a geração solar seja desfavorecida, enquanto na Modoki seja favorecida de acordo com as anomalias de precipitação. 

Terra à vista! Nesta curta jornada, vimos que além de conhecer as características da La Niña e seus impactos nos setores de energia, é preciso ficar de olho no tipo e intensidade do fenômeno.

Qual será a expectativa da Climatempo para os próximos meses?

A expectativa é que a partir de dezembro a La Niña ganhe força, sendo que as projeções dos modelos indicam uma La Niña de intensidade fraca a moderada. Atualmente, apresenta característica de La Niña Modoki e a tendência é que se mantenha assim nos próximos meses. Por isso, espera-se mais chuva na parte norte do Nordeste do Brasil (região litorânea), e menos chuva no Centro-Sul, principalmente durante o verão. Apesar disso, não há expectativa de que o fenômeno seja muito persistente, sendo que no início de 2022 comece a perder força, principalmente a partir de março.

Gerando sua própria energia – O sol como seu aliado

A energia fotovoltaica, existente a mais de 100 anos, é considerada atualmente a fonte de energia limpa que mais cresce no mundo.  No Brasil, a primeira contratação de energia solar de geração pública centralizada aconteceu em 2014 e segue em constante evolução com expectativa de se tornar uma verdadeira potência no mercado de energia.

Segundo os dados fornecidos pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), o uso da energia solar segue aumentando gradativamente, atingindo, em 2020, 30 mil imóveis no país. Ao passo que, a potência instalada chegou a 4.460MW. Avaliando por estados, Minas Gerais se destaca por ser o estado com maior capacidade fotovoltaica instalada até o momento: 671,5 MW (18,1%). Em seguida, o Rio Grande do Sul, com 446,9 MW (12,6%), e São Paulo, que conta com 440,1 MW (12,5%).

Atualmente, a matriz energética brasileira conta com mais de 173.279 MW, sendo 1,8% desse total proveniente da matriz solar. De acordo com o plano decenal da expansão da matriz energética brasileira da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a matriz solar deve evoluir até um patamar próximo de 3,3% (7.000 MW) em relação à matriz elétrica total e espera-se que o território brasileiro conte com, aproximadamente, 887 mil sistemas de energia solar instalados até 2024 (ABSOLAR, 2021).

Verão, a estação de maior geração?

É possível estabelecer uma relação de sazonalidade na geração de energia solar. No inverno, observa-se uma curva de geração muito próxima a curva registrada via dados observados de radiação, isso ocorre devido a pouca nebulosidade.

Entretanto, devido a fatores astronômicos, os valores de radiação são menores no inverno, afetando a capacidade de geração.

Já no verão, nota-se uma capacidade de geração maior em relação ao inverno, influenciada pela grande quantidade de radiação que chega na Terra. Porém essa geração não apresenta uma curva tão perfeita uma vez que também há maior quantidade de nebulosidade associada, o que impacta na produção de energia. Além dessas influências diretas, alguns estudos concluem que temperaturas do ar elevadas como no caso do verão, associadas a maior incidência de radiação solar na superfície da Terra, afetam de forma significativa a eficiência dos sistemas fotovoltaicos, provocando uma redução do valor da tensão e, consequentemente, diminuição no potencial de geração. (MICHELS et al., 2010).

Desta forma, a estação da primavera apresenta alguns

 recordes de geração por ser uma estação de transição em que possui uma quantidade de radiação alta, mas com menor incidência de nuvens. Porém, por outro lado, estas mesmas condições geram altos níveis de concentrações de O3 troposférico.

O que realmente sabemos do ozônio e suas interações com a radiação?

A diferença entre o O³ troposférico e o estratosférico, consiste em significativas diferenças de localização na atmosfera, interações com a radiação e nos efeitos gerados.

Ozônio troposférico é formado próximo à superfície por reações fotoquímicas (na presença de radiação solar). Devido aos efeitos nocivos à saúde, apresenta um limiar estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e padrões de qualidade do ar a serem seguidos.

Em grandes centros urbanos atua na formação do “smog fotoquímico”, crítica condição de poluição atmosférica.

Camada de Ozônio atua como proteção da vida no planeta, filtrando na estratosfera grande parte da radiação solar ultravioleta nociva que chega à superfície.

O ano de 2021 está sendo marcado pela intensificação da crise energética nacional, considerada a pior dos últimos 91 anos, situação fortemente influenciada pela grande dependência da matriz hidrelétrica. À vista disso, a expectativa de ampliação do uso de outras fontes renováveis aumenta, principalmente de fontes eólicas e solares. Incentivo não apenas às grandes geradoras,

mas também através de uma nova perspectiva: à geração solar residencial, que já é responsável por 72,6% do total gerado por essa matriz. A expectativa é de aumentar ainda mais essa participação devido ao fato de que a tarifa de energia encontra-se na bandeira vermelha desde junho, consequentemente tornando a conta mais cara para o consumidor em cerca de 16% a 20%.

Atrelado a isso, está cada vez mais fácil e viável instalar as placas solares, principalmente considerando o apoio dos bancos via financiamento com melhores condições para esta finalidade. Até mesmo àqueles que não possuem telhado ou espaço para gerar a energia que consome, pode contar com outras alternativas: usar da modalidade de energia compartilhada, pagando pelo aluguel de um lote/ pedaço de uma fazenda solar ou, gerando em um local e usando essa mesma energia em outro local dentro da mesma concessão de distribuição de energia.

Dito isso, é possível afirmar que o mercado está aquecido e cheio de boas oportunidades, principalmente atrelado ao desenvolvimento de novas tecnologias para dar suporte a todo esse sistema. Como, por exemplo, as baterias que armazenam a quantidade de energia excedente gerada, que têm evoluído bastante possuindo hoje

uma grande variedade de marcas e tipos no mercado, como por exemplo as baterias de íon de lítio (tecnologia que se popularizou através da Tesla Powerwall nos EUA).

 Portanto, sem dúvida o Sol é um grande aliado para a diminuição da conta de luz final ao consumidor e indústrias, além de auxiliar a mitigar os impactos ambientais.

Autora: Tailine Corrêa – Meteorologista

Co-autores: Patrícia Madeira – COO, Vitor Hassan – Head of Energy, Rafael Benassi – Meteorologista | Setor Elétrico, Pedro Regoto – Meteorologista, Lara Marques – Meteorologista | Setor Elétrico

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Referências Bibliográficas

MICHELS, Roger Nabeyama et al. A influência da temperatura na eficiência de painéis fotovoltaicos em diferentes níveis de incidência da radiação solar. Revista Agrogeoambiental, v. 2, n. 3, 2010

Novo Relatório do IPCC: Quais os impactos no setor elétrico nacional?

O que é o IPCC?

Em meio a uma das maiores crises hídricas do Brasil e aos extremos de temperatura que vem ocorrendo ao redor do mundo, o sexto relatório (AR6 – Assessment Report) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) foi liberado no início do mês de Agosto de 2021. O IPCC é uma organização internacional criada em 1988 pela WMO (World Meteorological Organization) e pela UNEP (United Nations Environment Programme) com o principal objetivo de auxiliar os governos mundiais na tomada de decisão com informações científicas sobre o clima e as mudanças climáticas.

Atualmente, o IPCC tem milhares de membros espalhados por 195 países, contribuindo de forma voluntária e sem viés político para o desenvolvimento do relatório. Vale ressaltar que o IPCC não conduz nenhuma pesquisa por conta própria, nem tampouco faz medidas ou roda modelos. O papel da organização é analisar e avaliar artigos científicos publicados que são relevantes para o melhor entendimento das mudanças climáticas que vem ocorrendo e seus consequentes impactos. A análise do IPCC é muito criteriosa, sendo classificada em níveis de confiança das evidências e concordância da literatura, ou seja, para cada apontamento do IPCC há determinada confiabilidade relacionada ao mesmo. O IPCC utiliza diferentes termos para os níveis, podendo ter baixa, média ou alta confiança, ou em casos onde pode-se quantificar a incerteza, utiliza-se termos como por exemplo: “virtualmente certo” (99-100%), “muito provável” (90-100%), ou ainda, “improvável” (0-33%), entre outros termos utilizados no relatório. 

De maneira geral, o IPCC é dividido em três grupos: o primeiro grupo é focado em descrever a física relacionada às mudanças climáticas, o segundo grupo tem como objetivo avaliar os impactos e as vulnerabilidades associadas às mudanças climáticas, o terceiro grupo trata sobre a mitigação das mudanças climáticas e avalia métodos para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Além dos três grupos, há também uma força tarefa do IPCC que tem como objetivo estabelecer maneiras de calcular e reportar as emissões de gases do efeito estufa.  O AR6 lançado no início deste mês é apenas do grupo um, onde trata dos aspectos físicos das mudanças climáticas, enquanto os demais grupos deverão lançar seus relatórios nos próximos anos.

A Climatempo Energia vem por meio deste especial mensal esclarecer as dúvidas em relação ao IPCC e contextualizar os apontamentos do relatório juntamente com os respectivos impactos no setor elétrico nacional.

Impactos das ações humanas

Um dos grandes questionamentos em relação ao aquecimento global era em que proporção as atividades antropogênicas (efeito da humanidade) e os efeitos naturais (atividade solar e vulcânica) eram responsáveis pelo aquecimento global que vem sendo observado e sinalizado pelos relatórios anteriores do IPCC. Neste contexto, o principal efeito da humanidade é dado pela emissão de gases do efeito estufa, como por exemplo o dióxido de carbono e o gás metano. Utilizando de novas tecnologias, novos métodos e novas evidências, o recente relatório do IPCC deixou evidente que não é possível que somente efeitos naturais provoquem o aquecimento médio de aproximadamente 1.6 ºC que foi observado entre 2011-2020 sobre os continentes (utilizando como referência os anos de 1850-1900). A Figura 1a) mostra que nos últimos 2000 anos nunca houve um aquecimento da magnitude que vem ocorrendo nos últimos 170 anos. Além disso, observa-se pela Figura 1b) que somente efeitos naturais, como aquecimento solar e atividades vulcânicas, não seriam capazes de explicar o aquecimento observado nos últimos 100 anos.

Figura 1: a) Variação decadal da temperatura média da superfície do globo nos últimos 2000 anos junto com as observações de 1850-2020 (linha preta sólida) e b) Variação anual da temperatura média da superfície do globo nos últimos 170 anos (utilizando de referência os anos de 1850-1900).

Outra constatação do IPCC está associada às alterações causadas por atividade humana, no qual  as ondas de calor ou eventos com temperaturas quentes (frias) extremas estão se tornando mais (menos) frequentes e mais (menos) intensos sobre os continentes desde os anos 1950. Além disso, de maneira geral, foi constatado que eventos de precipitação intensa também estão se tornando mais frequentes desde 1950. No entanto, vale ressaltar que seria necessário uma maior disponibilidade de dados e estudos que analisem o impacto no padrão de precipitação de forma mais confiável sobre a América do Sul. Em contrapartida, o IPCC também aponta para períodos de secas mais frequentes, sugerindo que apesar de haver um aumento de episódios de precipitação intensa, esta pode ser mais localizada e de curta duração. No caso das secas para a América do Sul, a única região onde houve consenso de aumento da frequência de eventos foi o Nordeste Brasileiro.

Impactos das Mudanças Climáticas no Setor Elétrico Nacional

Não é novidade que o setor elétrico brasileiro é impactado pelo sistema climático, visto que a matriz elétrica nacional em sua maior parte é renovável, dependente de hidrelétricas, principalmente, seguida pela matriz eólica que vem crescendo cada vez mais. Atualmente, em 2021, o Sistema Interligado Nacional (SIN) tem capacidade total instalada em operação cerca de 61,5% de energia hidráulica, 10,5% de eólica, 1,9% de solar e 25% de termelétricas (ANEEL, 2021). Em suma, o Brasil possui cerca de 75% de toda sua matriz energética como fontes sustentáveis. Entretanto, a energia térmica ainda é muito utilizada no Brasil para suprir a demanda energética do país quando os outros setores não são suficientes, realidade que vivemos no atual cenário. Indiretamente, a energia térmica está relacionada com o clima, pois se os reservatórios estão com volumes comprometidos pela escassez de chuva, as usinas térmicas são acionadas e o preço da energia elétrica aumenta, impactando diretamente no consumidor. E com a maior atividade das termelétricas, mais gases do efeito estufa são emitidos para a atmosfera, o que compromete os esforços para direcionarmos o Brasil, e o planeta, para uma trajetória mais sustentável.

Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), haverá uma expansão muito significativa nos próximos anos dos empreendimentos relacionados a usinas eólicas (36,4% em construção e 21,5% em construção não iniciada) e solares (19,3% em construção e 63,9% em construção não iniciada) no Brasil. Isso mostra que cada vez mais o setor energético brasileiro se torna  sustentável, e por isso, mais dependente dos recursos naturais que são influenciados diretamente pelo clima agora e no futuro.

O efeito mais direto e compreendido (altíssima confiança) das mudanças climáticas para o setor elétrico é o aumento da temperatura. Uma atmosfera mais quente promove um aumento da demanda energética, que por sua vez, aumenta a necessidade de mais carga de energia, o que, dependendo do cenário energético nacional, pode gerar racionamentos como medidas mais extremas para proteger o sistema elétrico. Juntamente a esse efeito, o novo relatório do IPCC trás evidências observadas de aumentos dos extremos de calor (ex: ondas de calor) que podem comprometer o sistema elétrico, como discutido anteriormente.

Além disso, destaca-se o papel fundamental do ciclo hidrológico na geração de energia elétrica nacional, mas que está sendo alterado ao longo do tempo em diversas regiões do Brasil. Com maior confiança, o AR6 mostra que as Regiões Nordeste, Centro-Oeste e leste do Norte são as que mais apresentam aumentos das frequências de eventos de secas severas, o que é preocupante para o setor hidráulico. Além disso, a umidade disponível no solo, fator fundamental para uma eficiente manutenção e elevação do volume de água das bacias hidrográficas, está diminuindo, corroborando ainda mais com um cenário pessimista para o setor hidráulico nas regiões afetadas. Porém, o setor eólico acaba sendo favorecido pela menor ausência de chuvas no Nordeste, pois de forma geral, um tempo mais seco e estável promove ventos mais constantes. Ademais, no Sul do Brasil já se observa uma elevação das chuvas intensas, principalmente ligado aos eventos de forte intensidade e curta duração. Isso pode ser positivo para o setor hidráulico no geral, mas negativo para a segurança da população residente na região.

Com todos esses efeitos combinados, a geração de energia solar pode ser favorecida no território brasileiro como um todo. No Nordeste e na região central do Brasil, onde em média as taxas de incidência de radiação solar na superfície são altas e os períodos secos estão ficando mais prolongados, ou seja, menor cobertura de nuvens por mais tempo, são regiões propícias a aumentos significativos da geração solar.

A geração de energia solar não está só presente no ambiente industrial, como também, em residências (ex: casas e prédios) para consumo individual. Isso é fundamental para que os consumidores finais consigam obter um certo tipo de “independência” energética do SIN. Isso é interessante tanto para o indivíduo quanto para o próprio sistema, pois mesmo que menor que seja a contribuição energética, ajuda na segurança do SIN.

Figura 2 – Panorama das mudanças observadas de extremos de calor, frio e chuva, e suas potenciais contribuições humanas para diversas sub-regiões na América do Sul delimitadas pelo IPCC. O Brasil pertence às regiões NSA, SAM, NES e SES.

Possíveis Trajetórias Futuras das Mudanças Climáticas

O panorama que vivemos atualmente de um mundo onde os extremos se tornam mais recorrentes e mais fortes é o mesmo cenário projetado para nosso sistema climático que o novo relatório do IPCC afirma com confiabilidade de ocorrer no futuro. Dependendo do caminho que a humanidade trilhar, as consequências podem ser mais ou menos severas, o que afeta diretamente o ecossistema terrestre.

O IPCC discute que existe a possibilidade de evitarmos algum tipo de catástrofe no futuro, mas somente se todas as nações abraçarem a causa em prol de um planeta mais sustentável. É inegável a importância do desenvolvimento e evolução da humanidade, mas o principal conceito por trás é de um desenvolvimento inteligente, em conjunto com a natureza, sem destruí-la. Uma das grandes mensagens do relatório e de diversos pesquisadores da área é de que os seres humanos pertencem ao Sistema Terrestre, não há justificativa plausível para que haja destruição de sua própria “casa”.

Diante de um conjunto de cinco cenários futuros que o IPCC traz à tona, os chamados Shared Socioeconomic Pathaways (SSPs), somente dois representam um planeta mais sustentável (SSP1-1.9 e SSP1-2.6, ver Figura 3) sem ultrapassar o nível de aquecimento global de 2 °C até o fim do século 21. Entretanto, segundo os modelos climáticos globais, será inevitável alcançar o limite de 1,5 °C de aquecimento global acima do período pré-industrial, estabelecido pelo Acordo de Paris em 2015. E com isso, diversos impactos, como mais eventos extremos (ondas de calor, chuvas intensas, secas severas, entre outros) devem ser esperados nas próximas décadas em decorrência de um planeta mais energético.

Figura 3 – Mudanças da temperatura global de superfície relativas ao período pré-industrial (1850-1900) para cinco cenários futuros, ordenados de forma que o SSP1-1.9 é o cenário mais “otimista”, ou seja, mais sustentável, e o SSP5-8.5 é o mais “pessimista”.

Como mostrado nas Figuras 4-6, as projeções climáticas de curto (2021-2040), médio (2041-2060) e longo (2081-2100) prazos diferem em relação ao tipo de cenário determinado (SSP1-2.6, SSP3-7.0 e SSP5-8.5) para as três variáveis em questão, temperatura média em superfície (Figura 4), precipitação (Figura 5) e vento em superfície (Figura 6). De forma geral, observa-se que conforme o período é mais distante (curto ao longo prazo), as mudanças climáticas de todas as variáveis tendem a ser mais intensas. Além disso, ao comparar os diferentes cenários futuros, o SSP5-8.5, considerado como mais pessimista do ponto de vista sustentável, é o que apresenta maiores magnitudes das mudanças climáticas.

No Brasil, as temperaturas podem alcançar valores próximos de 5 °C de aquecimento em relação ao período climatológico de 1995-2014. O regime de chuvas é mais incerto dentre as variáveis analisadas, visto que os modelos climáticos globais não apontam para um mesmo sinal nas mesmas regiões (áreas hachuradas). Entretanto, a mensagem clara é de que o ciclo hidrológico fica mais intenso, ou seja, onde normalmente as chuvas são fortes, ficam mais fortes ainda, e onde a seca predomina, ficará mais seco. As Regiões no Brasil onde o sinal tem maior confiança pelos modelos é no Norte e no Sul, com sinais de secamento e fortalecimento das chuvas, respectivamente. Em relação aos ventos, no geral, o Brasil tenderá a ter um cenário mais otimista para o setor eólico, pois há uma forte indicação de intensificação dos ventos em superfície praticamente em todo o território brasileiro.

Figura 4 – Projeções da temperatura média em superfície para três cenários futuros (SSP1-2.6, coluna da esquerda; SSP3-7.0, coluna do meio; SSP5-8.5, coluna da direita) e três períodos de tempo, representando o curto prazo (2021-2040, linha superior), médio prazo (2041-2060, linha central) e longo prazo (2081-2100, linha inferior). Para este cálculo, utiliza-se o ensemble de 32 modelos climáticos globais.
Figura 5 – Projeções da precipitação para três cenários futuros (SSP1-2.6, coluna da esquerda; SSP3-7.0, coluna do meio; SSP5-8.5, coluna da direita) e três períodos de tempo, representando o curto prazo (2021-2040, linha superior), médio prazo (2041-2060, linha central) e longo prazo (2081-2100, linha inferior). Para este cálculo, utiliza-se o ensemble de 31 modelos climáticos globais.
Figura 6 – Projeções do vento em superfície para três cenários futuros (SSP1-2.6, coluna da esquerda; SSP3-7.0, coluna do meio; SSP5-8.5, coluna da direita) e três períodos de tempo, representando o curto prazo (2021-2040, linha superior), médio prazo (2041-2060, linha central) e longo prazo (2081-2100, linha inferior). Para este cálculo, utiliza-se o ensemble de 29 modelos climáticos globais.

Autor: Luciano Ritter – Meteorologista

Co-autores: Patrícia Madeira – COO, Vitor Hassan – Head of Energy, Rafael Benassi – Meteorologista | Setor Elétrico, Pedro Regoto – Meteorologista

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Referências Bibliográficas

http://www.aneel.gov.br/sala-de-imprensa-exibicao-2/-/asset_publisher/zXQREz8EVlZ6/content/usinas-eolicas-correspondem-a-83-do-acrescimo-de-potencia-no-primeiro-semestre-de-2021/656877?inheritRedirect=false&redirect=http:%2F%2Fwww.aneel.gov.br%2Fsala-de-imprensa-exibicao-2%3Fp_p_id%3D101_INSTANCE_zXQREz8EVlZ6%26p_p_lifecycle%3D0%26p_p_state%3Dnormal%26p_p_mode%3Dview%26p_p_col_id%3Dcolumn-2%26p_p_col_pos%3D1%26p_p_col_count%3D3

IPCC, 2021: Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Masson-Delmotte, V., P. Zhai, A. Pirani, S. L. Connors, C. Péan, S. Berger, N. Caud, Y. Chen, L. Goldfarb, M. I. Gomis, M. Huang, K. Leitzell, E. Lonnoy, J. B. R. Matthews, T. K. Maycock, T. Waterfield, O. Yelekçi, R. Yu and B. Zhou (eds.)]. Cambridge University Press. In Press.

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Mudanças Climáticas: O que esperar para a geração eólica nacional?

Introdução:

A diversidade na matriz energética de um país é um fator extremamente importante para evitar episódios de crise energética, como ocorrido no Brasil em 2001, já que nesta época as hidrelétricas eram responsáveis por praticamente toda a geração de energia e estávamos com os reservatórios reduzidos. Episódios como este junto ao incentivo às fontes alternativas de energia ajudaram a iniciar a história da geração eólica no Brasil.

Neste mesmo ano, a capacidade eólica instalada representava somente 0,1% de toda energia gerada no país. Porém, continuamos a observar o crescimento exponencial da capacidade eólica, principalmente a partir de 2014 (Figura 1), quando atingiu aproximadamente 6 GW, já representando 2% relativa à toda matriz energética.

Atualmente, segundo dados do ONS, a geração eólica é capaz de suprir 10,6% de toda geração elétrica do Brasil. Isso é muito significativo principalmente para a região Nordeste que já se encontra em quase autossuficiência para atender sua demanda energética somente pela matriz eólica. Inclusive, no dia 12 de Julho deste ano, tivemos um novo recorde de geração instantânea de quase 12 GW, volume suficiente para atender 106% de toda a demanda do subsistema Nordeste.

Como o clima interfere na geração de energia eólica?

Os períodos mais favoráveis à geração eólica são o inverno e a primavera, principalmente entre os meses de agosto e setembro na região Nordeste, em que rotineiramente são registrados recordes de produção segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Atualmente, a maior parte dos projetos eólicos estão concentrados na região nordeste do Brasil (NEB), pois, essa região possui grande exposição a fenômenos meteorológicos que favorecem a continuidade e estabilidade da ação dos ventos sazonalmente.

No litoral norte do Nordeste, a intensificação dos ventos alísios contribui para a geração de energia eólica, entretanto, esta é uma região fortemente afetada pela dinâmica e interação das características da Zona de Convergência Tropical (ZCIT). Neste caso, destaca-se a interação oceano-continente na posição e deslocamento da ZCIT, de modo que quanto mais ao sul e por mais tempo a ZCIT estiver posicionada, maior será a qualidade da estação chuvosa no NEB (UVO & NOBRE 1989) e pior será para a geração eólica, pois, será impactada negativamente devido a maior variabilidade na velocidade e direção do vento.

Assim como a ZCIT, os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCANs) também podem impactar negativamente a geração eólica no Nordeste. Esses sistemas ciclônicos possuem o núcleo mais frio do que o entorno, o que favorece a precipitação ao redor do sistema e, consequentemente, interfere na variabilidade sazonal do vento (FEDOROVA et al, 2016).

Ainda nessa região, no início do segundo semestre, é comum ocorrer a intensificação de sistemas de alta pressão transientes ou semi-permanentes sobre o oceano Atlântico Sul (ASAS). Neste contexto, a borda desses sistemas se intensifica e segue direcionando os ventos do mar à região costeira nordestina. De modo que, quanto mais próximo do continente sul-americano a ASAS estiver, mais intenso serão os ventos que chegam no litoral NEB (MOSCATI & GAN, 2007), favorecendo o potencial eólico local.

Por outro lado, a interação entre a temperatura dos oceanos e a atmosfera é responsável pelo equilíbrio e balanço de energia no globo. Esse balanço de massa está completamente interligado com as ações dos fenômenos citados acima e impactam diretamente na qualidade da geração eólica nacional. Visto esse cenário, a Climatempo Energia desenvolveu estudos específicos para caracterizar a relação entre índices oceânicos e a qualidade do vento no NEB. Por conta disso, a Climatempo conta com relatórios (Figura 2) que avaliam o impacto de diversos sistemas climáticos e oceânicos na geração eólica, auxiliando no planejamento e nas tomadas de decisão de médio e longo prazo.

Figura 2: Avaliação de oscilações climáticas e oceânicas com anomalia da precipitação e do vento de um parque no nordeste brasileiro desde 1994 até 2020. Fonte: Climatempo Energia.

Qual o impacto futuro das mudanças climáticas no setor eólico brasileiro?

No contexto de aquecimento global e mudanças climáticas, o setor de energia renovável vem ganhando destaque. Especialmente no Brasil, o desenvolvimento do setor eólico é considerado como uma das principais metas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa no âmbito nacional. Diversos estudos mostram que os padrões climáticos globais de temperatura, chuva e vento serão alterados significativamente durante todo o século 21, independente da escolha dos cenários futuros projetados (IPCC, 2013). Dependendo do nível de aquecimento que o planeta for exposto, essas mudanças podem ser mais extremas ou não. Pesquisas mostram que se o aquecimento global ultrapassar o limiar de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris – até mesmo que se atinja valores inferiores mas próximos de 1,5 °C – espera-se que as mudanças climáticas tomem um rumo irreversível, o que traz muitos prejuízos para a humanidade (LENTON et al., 2019; STEFFEN et al., 2018).

Estimar os possíveis impactos que as mudanças climáticas podem ter no futuro sobre a disponibilidade de recursos eólicos no Brasil é de suma importância para um adequado planejamento energético. JONG et al. (2019) e REBOITA et al. (2018) investigaram como o regime de ventos, e por consequência, a geração eólica em todo o Brasil será alterada ao longo do século 21, através de modelos climáticos regionais. Ambos os estudos utilizaram o cenário climático RCP 8.5, considerado o mais “pessimista” em termos de aquecimento global, e consideraram os períodos 2020-2050 (futuro próximo) e 2070-2099 (futuro distante).

As projeções analisadas por ambos os estudos citados mostram um sinal claro de aumentos da geração eólica no Brasil ao longo do século 21, principalmente nas Regiões Nordeste e Sul, onde se predomina as maiores gerações de energia eólica atualmente. No futuro próximo (2020-2050), REBOITA et al. (2018) mostram aumentos mais significativos no outono com leves reduções no verão, para o Nordeste, enquanto que para o Sul, os aumentos se concentram mais no período de verão e primavera, com reduções mais significativas no inverno. Ao analisar as projeções no futuro mais distante (2070-2099), os sinais são amplificados de forma geral, como apresentado na Figura 3. JONG et al. (2019) mostram sinais muito similares aos encontrados por REBOITA et al. (2018), porém as análises são anuais, e não sazonais. Entretanto, vale ressaltar que muitas incertezas são associadas às projeções numéricas, desde a escolha do cenário forçante analisado (ex: RCP 8.5) até o modelo climático utilizado.

Figura 3: Projeções futuras sazonais (2070-2098) para a densidade de energia eólica (%) no nível de 100 metros, utilizando o cenário RCP 8.5. O cálculo é baseado na diferença entre os valores encontrados no clima futuro (2070-2098) e no clima presente (1979-2005). Fonte: REBOITA et al. (2018).

Determinar as causas das mudanças climáticas é algo bem complexo, pois muitos sistemas interagem entre si, dificultando a atribuição de causas. Porém, o padrão de mudanças de determinados fatores climáticos podem indicar um possível sinal do que realmente pode afetar o regime de temperatura, chuva, e mais especificamente aqui, o de vento. O relatório climático do IPCC em 2013 (IPCC, 2013) já sinalizava que a ASAS deve se expandir em direção ao continente sul-americano no futuro, o que corrobora com as mudanças positivas na geração de energia eólica. BYRNE et al. (2018) discutem que apesar do posicionamento da ZCIT não apresentar mudanças significativas historicamente e no futuro, a banda de precipitação está se tornando cada vez mais intensa e menos abrangente (menos larga). Isso pode estar relacionado com a diminuição das chuvas no Nordeste brasileiro (REGOTO et al., 2021), que por sua vez favorece os ventos. É importante mencionar que muitos outros fatores podem estar associados às mudanças nos padrões de vento.

Autora: Lara Marques Vieira | Meteorologista

Co-autores: Patricia Madeira | COO ; Vitor Hassan | Head of Energy ; Rafael Benassi | Meteorologista Setor Elétrico ; Pedro Regoto | Meteorologista Setor Elétrico ; Filipe Pungirum | Meteorologista Setor Elétrico.

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Referências Bibliográficas

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