Qual o papel da Oscilação de Madden-Julian no cenário de crise hídrica?

Diariamente nos deparamos com inúmeras reportagens que apresentam a previsão do tempo e o seu impacto nos principais setores da economia. Alguns exemplos dessas reportagens são:

Represa de Sobradinho está abaixo de 10%”,

Por que a chuva aumentou no Nordeste?”, “Rio Negro em inundação severa”,

Mapeamento das áreas afetadas pela estiagem no Brasil”,

Noroeste de SP em seca excepcional”.

O que essas reportagens têm em comum é o fato de relacionarem as condições de chuva observadas naquele momento a um fenômeno de teleconexão extremamente importante para diversos setores econômicos no Brasil, como os setores de agricultura e energia: a Oscilação de Madden-Julian (OMJ). Uma teleconexão representa um fenômeno de conexões remotas entre os campos atmosféricos, ou seja, o que acontece em uma dada localidade pode afetar as variáveis meteorológicas em pontos diferentes do globo e de formas variadas.

Mas o que é a Oscilação de Madden-Julian?

  • A OMJ começou a ser estudada em trabalhos observacionais no início da década de 70 por Madden e Julian (MADDEN e JULIAN, 1971, 1972).
  • A oscilação se caracteriza por um centro de convecção profunda, constituído por nuvens cumulus de diversos tamanhos (Figura 1).
  • Esse centro convectivo se propaga, em geral, a partir do Oceano Índico em direção ao Pacífico Oeste, com velocidade de aproximadamente 5 m/s e período entre 30 e 60 dias.
  • A OMJ é o principal modo da variabilidade intrasazonal (período de 30 a 90 dias) nos trópicos e, apesar de sua propagação estar limitada ao setor do Indo-Pacífico, essa oscilação provoca anomalias na circulação e precipitação ao redor de todo o globo.
Figura 1: Estrutura básica da Oscilação de Madden-Julian. A seta em verde representa a região de movimentos ascendentes e, portanto, a região do centro convectivo da OMJ (fase ativa) sobre o Oceano Índico,  favorecendo a precipitação. A leste, os movimentos subsidentes (seta marrom) indicam a região de supressão da convecção sobre o Pacífico Oeste (fase inativa da OMJ) e, portanto, um desfavorecimento das chuvas. Fonte: Gottschalck (2014). Disponível em:
https://www.climate.gov/news-features/blogs/enso/what-mjo-and-why-do-we-care

A OMJ é uma teleconexão extremamente complexa e altamente não-linear, o que torna sua previsão e monitoramento um verdadeiro desafio para os meteorologistas e pesquisadores. Atualmente, existem índices que foram criados com esse propósito de monitorar a posição da convecção da OMJ: cada uma de suas fases impacta de maneiras diferentes a chuva e a circulação ao redor do globo. Mas como esse fenômeno pode gerar valor para o setor de energia?

Impactos da OMJ no setor elétrico brasileiro

            Na América do Sul, em especial sobre o Brasil, a OMJ tem grande impacto sobre o sistema de monção e, portanto, age na modulação da chuva. A OMJ provoca um padrão de dipolo ou “gangorra” (Figura 2) de anomalias de precipitação entre a região de atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) e o Sudeste da América do Sul (SESA)  (VERA et al., 2018; GRIMM, 2019).

Figura 2: Padrão de dipolo de anomalias de precipitação associado à Oscilação de Madden-Julian na América do Sul. Os contornos em amarelo representam a localização das bacias hidrográficas brasileiras: BA – Bacia Amazônica, TA – Tocantins-Araguaia, ANOc – Atlântico Nordeste Ocidental, ANOr – Atlântico Nordeste Oriental, PNB – Parnaíba, SF – São Francisco, AL – Atlântico Leste, ASE – Atlântico Sudeste, PA – Paraguai, PR – Paraná, AS – Atlântico Sul, UR – Uruguai. Fonte: Camila Sapucci (2021) – Tese de Doutoramento.

Quando a convecção da OMJ está entre o Hemisfério Oeste e África (fases 8 e 1, Figura 3), há um favorecimento de anomalias positivas de precipitação na região da ZCAS, o que inclui a porção sul da Bacia Amazônica, as bacias do Tocantins-Araguaia, São Francisco e Atlântico Sudeste, abrangendo principalmente as regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil (Figura 2). Por outro lado, essa fase promove diminuição da convecção na região Sul do Brasil, incluindo a Bacia do Atlântico Sul e Bacia do Uruguai, favorecendo anomalias negativas de chuva nessas regiões. O padrão inverso ocorre quando a convecção da OMJ está posicionada sobre o Continente Marítimo (Figura 3, fases 4 e 5), o que favorece mais chuvas no Sul do Brasil e contribui para o que antigamente se conhecia por eventos de Não-ZCAS, que eram marcados por períodos predominantemente secos sobre o Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.

Figura 3: Anomalias de precipitação associadas às fases 4, 5, 8 e 1 da Oscilação de Madden-Julian para o período Novembro a Março. As regiões em marrom representam áreas com precipitação abaixo da média (anomalias negativas) e em verde precipitação acima da média (anomalias positivas). Fonte: Gottschalck (2014). Disponível em: https://www.climate.gov/news-features/blogs/enso/what-mjo-and-why-do-we-care
 

Esse marcante padrão de “gangorra” da OMJ afeta a geração de energia pelas hidrelétricas no Brasil, que é um país com alta aderência desse tipo de energia renovável. Inclusive, a maior parte das comercializadoras que são atendidas pela Climatempo Energia se baseiam nesse tipo de informação para tomada de decisões importantíssimas no planejamento de compra e venda de energia.

            A maioria das bacias hidrográficas que são importantes do ponto de vista da geração de energia são afetadas por esses dois centros do dipolo da OMJ (Figura 2). Como exemplo, podemos citar o caso da Bacia do Paraná, que abastece uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo, a Itaipu Binacional. A porção sul da Bacia do Paraná é afetada pelo centro de ação do dipolo da OMJ sobre o Sul do Brasil, enquanto sua porção norte recebe um efeito defasado da ação da OMJ sobre os rios da região Sudeste. Tudo isso confere uma dificuldade adicional na previsão de chuva na escala de 15 a 60 dias para a Bacia do Paraná.

Portanto, prever com acurácia o impacto da OMJ na precipitação sobre as principais bacias hidrográficas brasileiras é um tópico de grande interesse por parte do setor elétrico. A informação da quantidade de chuva é essencial no processo de tomada de decisões nos setores de gerenciamento de recursos hídricos e geração de energia, uma vez que a precipitação afeta a afluência dos reservatórios e, portanto, a porção da vazão que será turbinada para geração de energia e a vazão que será vertida.

Case real de impacto negativo da OMJ: crise hídrica

Anomalias negativas de precipitação induzidas pela OMJ podem colocar em conflito interesses de diferentes setores, como o abastecimento de cidades e a geração de energia. Quando isso acontece, em geral, buscam-se outras alternativas de complementaridade de fontes, como a utilização das usinas termelétricas, o que encarece o custo da operação e implica num aumento do valor da conta de energia paga pelo brasileiro.

            Um exemplo recente é a crise hídrica de 2014, que afetou de forma dramática o sistema Cantareira e o abastecimento de água no Sudeste do Brasil, em especial sobre a Região Metropolitana de São Paulo. O trimestre de Janeiro a Março de 2014 foi marcado por chuvas abaixo da média em quase todo o país, com exceção da Região Sul. Os modelos globais indicavam fases da OMJ favoráveis à precipitação no Sudeste na primeira quinzena de março, o que não foi observado. A OMJ permaneceu com amplitudes altas nas fases 8 e 1, mas seu impacto na precipitação no Sudeste foi inexistente.

Essa situação, somada ao efeito de outros sistemas atmosféricos atuantes, contribuiu para a ocorrência de condições secas sobre a porção centro-leste do Brasil, o que gerou uma reação em cadeia com baixos níveis nos reservatórios, problemas no abastecimento urbano e encarecimento do processo de geração de energia devido a necessidade de maior despacho das termelétricas. 

Tudo isso mostra que a OMJ é um fenômeno de teleconexão extremamente importante no planejamento das atividades no setor elétrico nacional. A OMJ impacta no nível dos reservatórios, na porção da vazão que será convertida em eletricidade e também no chamado Preço de Liquidação das Diferenças, o PLD, que é influenciado pela disponibilidade hídrica.

Quer saber mais sobre qual a expectativa desse fenômeno para a atual crise hídrica? Não deixe de conferir o Especial Crise Hídrica da Climatempo Energia.

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Autor: Camila Ribeiro Sapucci – Doutoranda em Meteorologia pelo IAG-USP

Co-autores: Patrícia Madeira – COO, Vitor Hassan – Head of Energy, Rafael Benassi – Meteorologista | Setor Elétrico, Filipe Pungirum – Meteorologista

Referências Bibliográficas

GRIMM, A. M. Madden–Julian Oscillation impacts on South American summer monsoon season: precipitation anomalies, extreme events, teleconnections, and role in the OMJ cycle. Climate Dynamics, v. 53, p. 907-932, 2019.

MADDEN, R. A.; JULIAN, P. R. Detection of a 40-50 day oscillation in the zonal wind in the tropical Pacific. Journal of Atmospheric Science, v. 28, p. 702-708, 1971.

MADDEN, R. A.; JULIAN, P. R. Description of global-scale circulation cells in the tropics with a 40–50 day period. Journal of Atmospheric Science, v. 29, p. 1109–1123, 1972.

VERA, C.S.; ALVAREZ, M.S.; GONZALEZ, P. L. M; LIEBMANN, B.; KILADIS, G. N. Seasonal cycle of precipitation variability in South America on intraseasonal timescales. Climate Dynamics, v. 51 (5-6), p. 1991-2001, 2018.

Impacto da meteorologia na atual crise hídrica

O Brasil está enfrentando mais uma crise hídrica ou ainda estamos na mesma crise que começou em 2012? O fato é que o País, com extensão continental, com abundância de vento, água e sol e com grande potencial para geração renovável, está com problemas. Antes de explicar a relação da meteorologia com o tema, é importante ressaltar que a matriz elétrica brasileira é alimentada principalmente por fontes renováveis (83%), um ponto extremamente positivo quando comparado com a média mundial que é de 25% (BEN, 2020). No Brasil, estamos acompanhando um grande crescimento da produção de energia proveniente de fontes eólicas, a qual ultrapassou recentemente o marco de 18 GW de capacidade instalada, equivalente a 10,3% da matriz elétrica brasileira. Ainda assim, as hidráulicas representam a maior fonte de geração de energia no país, tal que alterações no volume ou padrões irregulares de precipitação afetam todo o setor de energia.

Principais Sistemas Climáticos e a crise hídrica

Apesar do Brasil ser um país com enorme extensão continental, o grande regulador dos padrões meteorológicos que influenciam no continente são os oceanos, que interagem com a atmosfera e regulam o balanço de energia através da redistribuição do vento e da água. O padrão de precipitação de uma região pode ser alterado por diversos sistemas meteorológicos e climáticos, que possuem diferentes resoluções espaciais e temporais. Um dos sistemas climáticos mais conhecidos e monitorados é o El Niño – Oscilação Sul[RB1] .

O El Niño é um dos sistemas climáticos que mais recebe atenção da mídia e da comunidade científica, por representar cerca de 40% da variabilidade climática no Brasil, principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste (GRIMM et al., 1998; KAYANO, ANDREOLI, 2016). No entanto, outros sistemas também são capazes de alterar o padrão de precipitação nas bacias de geração hídrica, especialmente quando estes sistemas de menor influência atuam simultaneamente. Alguns exemplos destes sistemas são: Oscilação Antártica (OA) ou Modo Anular Sul (SAM)[RB2] , Oscilação de Madden Julian (OMJ)[RB3] , Oscilação Quase Bienal (QBO) entre outras.

Quer saber mais sobre o El Niño? Acesso o Especial mensal de Dezembro.[RB4] 

A atual crise hídrica possui diversas semelhanças com a crise que enfrentamos nos anos de 2014 e 2015. Porém, para compreender o impacto da meteorologia na crise atual, é necessário um maior entendimento dos sistemas citados anteriormente.

A Oscilação Antártica, também conhecida como Modo Anular Sul, é um fenômeno de variabilidade climática que domina a circulação extratropical. Essa circulação está associada a um cinturão de baixa pressão, que se concentra próximo à Antártica em sua fase positiva e se expande até o sul da América do Sul em sua fase negativa (Figura 1). O processo de expansão ou retração do cinturão de baixa pressão normalmente dura de semanas a meses.

Figura 1: Primeira EOF de anomalia mensal de altura geopotencial em 700 hPa (1980-2006) abril (esquerda) e julho (direita) representando as fases positiva e negativa, respectivamente. Adaptado de Vasconcellos (2012).

De forma geral, a fase positiva reduz o avanço dos sistemas frontais pela América do Sul, diminuindo o volume de precipitação no centro-sul brasileiro. Enquanto a fase negativa permite que estes sistemas transientes adentrem o continente, favorecendo positivamente a geração hídrica e manutenção dos reservatórios.

No índice da oscilação Antártica, observa-se o predomínio da fase positiva desde os últimos meses de 2020, padrão que também foi observado nos anos de 2015 e 2016 (Figura 2).

Figura 2: Média móvel trimestral do Índice AAO. Fonte NOAA CPC.

Por outro lado, a Oscilação de Madden Julian (OMJ) é uma oscilação intrasazonal que se propaga através da faixa tropical do globo, com ciclo em torno de 30 a 60 dias. Esse pulso de convecção promove o aumento/diminuição da precipitação regional. Nas fases 4 e 5 (1 e 8) a oscilação é desfavorável (favorável) à precipitação no Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil (DE SOUZA, AMBRIZZI, 2006).

No ano de 2020 a configuração de um bloqueio atmosférico persistente promoveu recordes de temperaturas e baixos volumes pluviométricos entre setembro e outubro no Brasil, principalmente no Sudeste, influenciado pela OMJ (Figura 3). No verão de 2013 a 2014, a OMJ também ficou estacionada por muito tempo nas fases 5 e 6, o que influenciou na presença de bloqueio atmosférico no Sudeste, deixando o tempo seco na região, e com temperaturas elevadas, condições que acarretaram o agravamento da crise hídrica.

Figura 3: Índice da Oscilação de Madden Julian de 16/09/2020 a 14/12/2020.

Ainda não há o entendimento por completo do porquê a OMJ persistiu por tanto tempo nas fases 5 e 6 (desfavorável a precipitação) em 2020 e em 2013/2014. Uma das possíveis explicações é a influência da Oscilação Quase-Bienal (QBO), no qual a fase negativa da QBO é capaz de alterar a duração e intensidade das fases da OMJ.

Na crise hídrica de 2013/2014, foi no verão que o nível do sistema Cantareira (abastecimento humano) começou a ficar mais crítico. O ano de 2014 contou com vários meses com chuva abaixo da média, em 2015 os volumes de chuva apesar de acima da média (influenciados pelo El Niño) não foram suficientes para recuperar o volume dos reservatórios, uma vez que este se encontrava no volume morto. Além do impacto causado pelo consumo acima da média (MARENGO; ALVEZ, 2015).

De forma geral, a fase e posição destes sistemas climáticos, influenciaram também os níveis dos reservatórios de geração de energia e da energia natural afluente (ENA) na crise hídrica de 2014/2015 e estão impactando de forma negativa novamente nos anos de 2020/2021.

E por fim estamos na fase negativa da ODP (Oscilação Decadal do Pacífico; MANTUA; HARE, 2002), que é quando há a diminuição das temperaturas do Oceano Pacífico. A fase negativa da ODP é capaz de aumentar a incidência e intensidade de eventos de La Niña em a diminuição e enfraquecimento do El Niño. Para a fase positiva da ODP o impacto é observado principalmente no leste do Brasil de novembro a fevereiro, sobre o Norte e Noroeste da América do Sul durante março e abril. Enquanto a fase negativa apresenta impacto sobre o Nordeste março e abril (KAYANO, ANDREOLI, 2016).

Diante de todas os fenômenos analisados, a conclusão para a primeira questão: O Brasil está enfrentando mais uma crise hídrica ou ainda estamos na mesma crise que começou em 2012? é que sim, estamos na mesma crise hídrica, que teve momentos mais brandos e agora está na sua fase crítica novamente. 

Qual a expectativa para os próximos meses?

Estamos praticamente no Inverno e nesta época do ano não se espera por chuva significativa para a região central do Brasil. Não há nenhum fenômeno meteorológico previsto que possa mudar este quadro. No Sul, ao contrário, apesar da pouca sazonalidade anual nas Bacias, é o período das melhores chuvas. A previsão ainda é de irregularidade na precipitação, mas em uma condição muito melhor do que o observado até o início de maio, quando as frentes frias praticamente não provocavam instabilidades sobre a Região. A boa notícia é que não há expectativa de atraso na entrada do próximo período úmido!

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Autores: Patricia Madeira – COO; Vitor Hassan – Head of Energy; Rafael Benassi – Meteorologista | Setor Elétrico; Fabiene Francesca Casillo – Meteorologista.

Impacto das mudanças climáticas no setor de energia

IMPORTÂNCIA DO CLIMA

As condições de tempo e clima influenciam diretamente o setor de energia, desde os processos de planejamento de geração, até a operação e manutenção de hidrelétricas, complexos eólicos e solares, distribuidoras e transmissoras de energia. Isso porque no Brasil e na maior parte do mundo os ativos que compõem o setor elétrico estão expostos às interferências de tempo e clima, além de ter o vento, água e sol como um dos grandes aliados na geração de energia. Nesse contexto as mudanças climáticas, por menores que sejam, podem impactar no comportamento das variáveis meteorológicas e consequentemente no planejamento e operação do setor elétrico nacional.

O clima que conhecemos (regime de precipitação, padrão de ventos, temperatura) pode se alterar ao longo do tempo (décadas, séculos e milênios). Essas alterações podem ocorrer por causas naturais (alterações na radiação solar e movimentos orbitais, por exemplo) ou podem ser consequência das atividades humanas (CAVALCANTI, 2016).

As alterações no clima por causas naturais ocorrem em uma escala temporal na ordem de séculos a milênios quando comparado com alterações antropogênicas (intensificadas por atividades humanas) (NOBRE et al., 2007). Dentro do tema mudanças climáticas, surgem os termos aquecimento global e efeito estufa, que precisam ser compreendidos para tornar possível avaliar o impacto das mudanças climáticas no setor de energia.

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AQUECIMENTO GLOBAL E EFEITO ESTUFA

O aquecimento global está relacionado ao aumento da temperatura média global do ar próximo à superfície. A causa desse aumento de temperatura está associada com ao aumento das emissões de gases do efeito estufa (dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O), etc) na atmosfera. Esses gases absorvem parte da radiação de onda longa emitida pela superfície terrestre após o aquecimento, causando aumento da temperatura. Esse processo é natural e essencial para a vida no planeta Terra, pois mantém a temperatura média do planeta em torno de 15°C. Em decorrência do crescimento exponencial da quantidade de gases emitidos para a atmosfera desde a Revolução Industrial (1800) (Figura 1), a temperatura média global vem aumentando em uma taxa elevada. Esse aumento de temperatura é responsável por alterações nos padrões climáticos que apresentam efeitos diretos e indiretos nos setores ambientais, econômicos e sociais (Mideksa et al., 2010).

Figura 1: CO2 na atmosfera e emissões anuais (1750 – 2019) (Fonte: NOAA Climate.gov)

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IMPORTÂNCIA E CONSEQUÊNCIA NO SETOR DE ENERGIA

O setor de energia é um elemento chave no tema das mudanças climáticas. Possui um papel extremamente importante no combate a emissão de gases do efeito estufa, devido ao desenvolvimento e incentivo de geração renovável e limpa. Uma vez que atualmente o setor de energia é responsável por uma parte das emissões de gases do efeito estufa, causado principalmente pela queima de combustíveis fósseis.

Porém, como a geração renovável depende das condições meteorológicas, ela pode ser afetada, até mesmo reduzida drasticamente em algumas regiões devido a alterações na estação chuvosa, mudança na frequência e intensidade de eventos de precipitação, modificações na quantidade de radiação solar que atinge a superfície e nos padrões de circulação de vento (Gambhir et al., 2019).

Os impactos negativos não estão restritos apenas à geração de energia, as atividades de transmissão e distribuição também podem ser dificultadas com o aumento da frequência ou intensidade de eventos de tempo severo, principalmente devido ao aumento da intensidade do vento em regiões alteradas pela ação humana. No caso da distribuição de energia, as empresas têm se preocupado cada vez mais com os eventos de vento forte e seus impactos nos indicadores de continuidade, devido à queda de árvores e aumento de Clientes Interrompidos. Por outro lado, as transmissoras de energia estão mais preocupadas em justificar eventos extremos que em alguns casos possuem força suficiente para derrubar torres de alta tensão. Mas será mesmo que isso tem haver com a ação humana ou segue padrões climatológicos bem definidos?

Alguns estudos avaliam e projetam qual será o impacto das mudanças climáticas no Brasil, mas alguns resultados ainda variam de acordo com a simulação e cenário de emissão de gases selecionado. Montroull et al. (2018) analisaram as alterações de volume de precipitação, escoamento e evapotranspiração na Bacia do Prata, que possui como principais rios o Paraná (4.352 km), o Paraguai (2.459 km) e o Uruguai (1.600 km). Os autores encontraram que as vazões médias dessas sub-bacias poderão variar em até 20% em um futuro próximo, com tendência de aumento da precipitação no setor centro-sul e redução no setor norte da Bacia do Prata.

Para entender um pouco mais sobre este tema, convidamos o especialista em mudanças climáticas Pedro Regoto, para contribuir com esse texto. Regoto et al. (2021) nos apresentou uma pesquisa bem recente sobre mudanças em eventos extremos relacionados à temperatura do ar e precipitação sobre o Brasil, para o período 1961-2018, baseando-se em dados observados de estações meteorológicas/pluviométricas do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e da Agência Nacional de Águas (ANA).

Os principais resultados discutidos pelos autores é de que, no geral, a intensidade e frequência dos extremos quentes aumentaram e dos extremos frios reduziram significativamente em todo o Brasil. Para os extremos de precipitação, o estudo mostra que os padrões das mudanças espaciais no país não são homogêneas como para os extremos de temperatura, ou seja, há uma alta variabilidade espacial, o que era de se esperar, ressaltam os autores.

Entretanto, detecta-se que nas Regiões Nordeste e Sul as tendências dos extremos de precipitação são de redução e aumento significativos, respectivamente. Essas mudanças, tanto para temperatura quanto precipitação, são mais pronunciadas a partir da década de 90 (Figura 2). No restante do Brasil, os sinais de mudança de chuva são muito heterogêneos, sem apresentar um sinal robusto. A Figura 3 sumariza as mudanças nos extremos climáticos sobre todas as regiões no Brasil. No contexto de impactos no setor energético brasileiro, esses resultados são uma indicação de que, principalmente, no Nordeste as chuvas estão diminuindo ao longo do tempo, mas no Sul o padrão é inverso, chuvas aumentando, o que podem impactar negativamente e positivamente na produção de energia regional (Eólica/Solar e Hidrelétrica). Além disso, a distribuição de energia elétrica pode ser alterada no futuro mediante às mudanças recentes no clima assim como às mudanças futuras.

Figura 2 – Séries temporais observadas de anomalias dos extremos de temperatura e precipitação, no período 1961-2017, sobre as cinco principais macro-regiões no Brazil: (a) Norte, (b) Nordeste, (c) Centro-Oeste, (d) Sudeste, e (e) Sul. O período climatológico baseado para o cálculo das anomalias é de 1981 a 2010. As duas primeiras colunas representam indicadores de extremos de temperatura, e as duas últimas aos de precipitação. A primeira coluna apresenta o indicador TX90p (dias quentes [% dias]), a segunda ao TN10p (noites frias [% dias]), a terceira ao R95p (dias muito chuvosos [mm]), e a quarta ao R30mm (dias com precipitação forte [dias]). As linhas pontilhadas em vermelho, azul e verde, referem-se aos indicadores relacionados a extremos quente, frio e chuvoso, respectivamente. A linha sólida preta indica a série temporal das anomalias suavizadas considerando um filtro Gaussiano de 15 pontos (anos). Fonte: Regoto et al. (2021).
Figura 3 – Resumo das mudanças nos extremos climáticos para cada região do Brasil. Fonte: Regoto et al. (2021).

Outros estudos, como o Relatório de 2013 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), mostraram que as mudanças climáticas serão capazes de aumentar a duração e quantidade de períodos sem chuvas. Porém, quando houver períodos de chuvas, a intensidade de chuva será maior.

Por conta da capacidade das condições de tempo e clima afetarem o setor de energia como um todo, tanto de forma positiva como de forma negativa, é extremamente importante conversar com especialistas sobre o tema e contar com uma equipe de meteorologistas e climatologistas especializados a disposição.

Autores: Patricia Madeira – COO; Vitor Hassan – Head of Energy; Rafael Benassi – Meteorologista | Setor Elétrico; Filipe Pungirum – Meteorologista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAVALCANTI, I. F. A. Tempo e clima no Brasil. Oficina de textos, 2016.

GAMBHIR, Ajay et al. Energy system changes in 1.5 C, well below 2 C and 2 C scenarios. Energy Strategy Reviews, v. 23, p. 69-80, 2019.

MIDEKSA, Torben K.; KALLBEKKEN, Steffen. The impact of climate change on the electricity market: A review. Energy Policy, v. 38, n. 7, p. 3579-3585, 2010.

MONTROULL, Natalia B.; SAURRAL, Ramiro I.; CAMILLONI, Inés A. Hydrological impacts in La Plata basin under 1.5, 2 and 3° C global warming above the pre‐industrial level. International Journal of Climatology, v. 38, n. 8, p. 3355-3368, 2018.

NOBRE, Carlos A.; SAMPAIO, Gilvan; SALAZAR, Luis. Mudanças climáticas e Amazônia. Ciência e Cultura, v. 59, n. 3, p. 22-27, 2007.

Regoto P, Dereczynski C, Chou SC, Bazzanela AC. Observed changes in air temperature and precipitation extremes over Brazil. Int J Climatol, v. 1, p. 1-18, 2021

Ciclone Bomba e seus Impactos na Transmissão e Distribuição de Energia

Dois episódios de formação de ciclone bomba receberam grande destaque na mídia brasileira nos meses de junho e de setembro de 2020. Os episódios foram responsáveis por ocorrências de tempo severo no Sul do Brasil, acompanhados de ventania de até 60 km/h no interior do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina e ventos mais intensos, de até 90 km/h na região entre o litoral norte gaúcho e a costa sul catarinense. As empresas de distribuição e transmissão de energia parceiras da Climatempo costumam acompanhar de perto com nossa equipe de meteorologistas o desenvolvimento e deslocamento deste fenômeno meteorológico. Infelizmente não conseguimos deter a ação do sistema, mas um alerta unido ao planejamento efetivo pode não só evitar grandes prejuízos, como também salvar vidas.

Como estamos nos aproximando do segundo semestre de 2021, vamos falar um pouco sobre a parte técnica de formação e atuação destes fenômenos no Brasil, seus impactos no setor de energia e como podemos nos planejar.

É importante ressaltar que por definição os ciclones são sistemas meteorológicos associados a áreas de baixa pressão em superfície (Petterssen, 1956) que modificam as condições de tempo e de clima das regiões em que atuam, sendo responsáveis pela formação de grandes áreas de nebulosidade associadas a episódios de chuva e vento intenso. Existem três tipos de ciclones que a princípio podem ser classificados de acordo com a faixa de latitude em que ocorrem: tropical (5° e 20°), subtropical (15° e 35°) e extratropical (sul de 25°)

Diferença Entre os Tipos de Ciclones

No entanto, estes ciclones apresentam diferentes mecanismo de gênese (ciclogênese) e de dissipação (ciclólise). A principal diferença está no processo de formação, que resulta em sistemas com diferentes estruturas verticais. Os ciclones subtropicais e tropicais apresentam núcleos de baixa pressão sobrepostos em diferentes níveis da atmosfera, como se estivessem “empilhados” um sobre o outro, desde a superfície até níveis mais altos da atmosfera. O centro de baixa pressão dos ciclones extratropicais, por outro lado, não são alinhados na vertical. As áreas de baixa pressão em altitude ficam deslocadas ou inclinadas para oeste em relação ao centro de baixa em superfície (Figura 1). Para formação deste tipo de sistema, é necessário gradientes horizontais de temperatura em superfície (baroclinia) e a proximidade com um cavado na alta ou média troposfera.

Tipos de ciclones  que a princípio podem ser classificados de acordo com a faixa de latitude em que ocorrem: tropical (5° e 20°), subtropical (15° e 35°) e extratropical (sul de 25°).
Figura 1: Estrutura vertical dos diferentes tipos de ciclones.

Gradientes de temperatura são observados ao longo do oceano Atlântico Sul, de forma que resultam na formação de três regiões ciclogenéticas (área favorável a formação de ciclones, indicada por RC na Figura 2), localizadas no sul da Argentina, na costa do Uruguai e na costa Sul/Sudeste do Brasil, respectivamente (Reboita et al., 2009).

Figura 2: Densidade de ciclogêneses (10-4 km-2) no período de 1990 a 1999, que se iniciaram com vorticidade menor ou igual a -1,5×10-5s-1. Adaptado de Reboita et al. (2010).

Para acompanhar notícias e avisos sobre ciclones para o setor de energia entre no grupo exclusivo de energia da Climatempo no Telegram!

Ciclones no Setor de Energia

Para a matriz energética brasileira, que ainda é extremamente dependente da geração hídrica, os ciclones extratropicais são extremamente importantes para a manutenção das chuvas nas bacias e reservatórios do Sul do Brasil devido a formação e passagem de sistemas frontais, principalmente nos meses de inverno. Já para o Sudeste e Centro-Oeste brasileiro, este sistema também impacta diretamente a posição da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), um dos principais sistemas meteorológicos atuantes da estação chuvosa (Robertson e Mechoso, 2000; Cavalcanti, 2006).

Porém, os ciclones também apresentam impactos negativos para o setor de energia, principalmente para as concessionárias de transmissão e distribuição de energia. Para as empresas de distribuição de energia, os ciclones mais intensos tendem a causar sérios impactos na rede elétrica principalmente devido a ação do vento e queda de árvores. Este combo (vento + árvores) é extremamente perigoso para a população, pode causar grandes danos urbanos e também impacta diretamente nos indicadores de continuidade das concessionárias. Visto este cenário, a Climatempo desenvolveu em 2019 um índice de criticidade que prevê através de inteligência artificial a % de CHI (Cliente hora interrompido) por microrregiões da área de distribuição com até 72 horas de antecedência. Esta tecnologia retira a subjetividade humana do operador no despacho das equipes e pode auxiliar na redução do DEC principalmente. Este projeto já virou um produto operacional e está disponível em nosso sistema de monitoramento e alerta (SMAC).

É importante ressaltar que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) exige que as distribuidoras de energia mantenham um padrão de continuidade no fornecimento de energia elétrica em suas áreas de concessão, e para tal providencia limites para os indicadores coletivos de continuidade (DEC e FEC). O DEC mostra a duração em horas que um conjunto de consumidores ficou sem energia elétrica, enquanto o FEC é a frequência equivalente de interrupção por unidade consumidora (ANEEL).

Ciclone Bomba

A nomenclatura de “Ciclone Bomba” surgiu devido ao aprofundamento do sistema de baixa pressão de forma muita mais rápida do que é observado em outros episódios de ciclone. Normalmente o ciclone bomba possui uma queda de pressão superior a 24 hPa em um intervalo de 24 horas, um forte indicativo de tempestade intensa, com rajadas de vento que podem atingir 90 km/h.

Para o setor de energia, os impactos foram sentidos principalmente por empresas responsáveis pela distribuição e transmissão de energia elétrica no Sul do Brasil. Quedas de árvores, devido a intensas rajadas de ventos, deixaram mais de 600 mil pessoas sem energia elétrica no Rio Grande do Sul em junho de 2020. Além disso, rompimento de cabos e quedas de torres de transmissão também foram observados no estado de Santa Catarina.

Figura 3: registro de área destruída no município de Chapecó – Foto: Prefeitura de Chapecó (SC).

Para as transmissoras de energia que costumam ter ativos cruzando Estados, o impacto pode ser ainda mais prejudicial com queda de diversas torres em cascata. Para isso a Climatempo desenvolveu um módulo do SMAC (faça um trial) focado na transmissão de energia, com monitoramento de tempo severo ainda em países vizinhos e possibilidade de alertas por trechos de linhas. Após o impacto é possível ainda a consulta do histórico por faixa de servidão da linha de transmissão. Esta ferramenta é fundamental para a segurança das equipes em campo e otimiza o planejamento das atividades de operação e manutenção, evitando a parcela variável. 

Autores: Patricia Madeira – COO; Vitor Hassan – Head of Energy; Rafael Benassi – Meteorologista | Setor Elétrico; Filipe Pungirum – Meteorologista.

Referências Bibliográficas

CAVALCANTI, I. F. A. Tempo e clima no Brasil. Oficina de textos, 2016.

Indicadores Coletivos de Continuidade (DEC e FEC). ANELL, 2021. Disponível em: <https://www.aneel.gov.br/indicadores-coletivos-decontinuidade>. Acesso em: 25, março de 2021.

PETTERSEN, S. Weather Analysis and Forecasting: Volume I: Motion and Motion Systems. 1956.

REBOITA, M. S.; GAN, M. A.; ROCHA, R. P.; AMBRIZZI, T. Regimes de precipitação na América do Sul: uma revisão bibliográfica. Revista brasileira de meteorologia 25, no. 2 (2010): 185-204.

ROBERTSON, Andrew W.; MECHOSO, Carlos R. Interannual and interdecadal variability of the South Atlantic convergence zone. Monthly weather review, v. 128, n. 8, p.2947-2957,2000.



Interação do Atlântico Sul com os sistemas meteorológicos no Brasil

Os oceanos cobrem, aproximadamente, 70% da superfície terrestre e devido a sua alta capacidade térmica desempenham um papel fundamental na variabilidade climática do planeta, onde a troca de energia oceano-atmosfera e as circulações oceânicas são determinantes para as condições de tempo e de clima (CAVALCANTI, 2006). Diferente do que muitas pessoas imaginam, não se pode levar em consideração apenas a temperatura da superfície do mar (TSM) do Pacífico ao analisar a distribuição de chuvas no Brasil. Devido a sua extensão continental, o Brasil também é afetado por variações da TSM de diferentes oceanos. Desde os impactos do aquecimento ou resfriamento do Oceano Pacífico em episódios de El Niño ou La Niña, afetando diretamente o padrão de chuvas sobre os principais reservatórios, até a influência do Atlântico tropical na posição da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), afetando diretamente a qualidade dos ventos no Nordeste brasileiro. De forma análoga, variações na TSM do Atlântico Sul são capazes de alterar as condições de tempo nas porções sul e sudeste da América do Sul (REBOITA et al., 2009), principalmente devido à existência de três regiões ciclogenéticas (área favorável a formação de ciclones, indicada por RC na Figura 1), localizadas no sul da Argentina, na costa do Uruguai e na costa Sul/Sudeste do Brasil, respectivamente.

Figura 1: Densidade de ciclogêneses (10-4 km-2) no verão entre 1990 a 1999, que se iniciaram com vorticidade menor ou igual a -1,5×10-5s-1. Adaptado de Reboita et al. (2009).

As regiões ciclogenéticas destacadas na Figura 1, são importantes para a manutenção do período chuvoso no Sul e em parte do Sudeste brasileiro, no qual sistemas frontais e ciclones são os principais responsáveis pelo padrão de precipitação no inverno austral.

Atlântico Sudoeste

O gradiente de TSM na região do Atlântico Sudoeste, indicado em cinza na imagem de satélite da Figura 2, é importante para a formação e avanço de frentes frias. Climatologicamente, são observadas águas mais frias (quentes) na porção sul (norte) do Atlântico Sudoeste e quanto mais intenso for este gradiente (diferença entre águas mais frias e mais aquecidas), maior será a energia disponível para a formação de sistemas frontais, atuando de forma positiva para o preenchimento dos reservatórios.

Figura 2: Imagem de satélite da AS com área delimitada em cinza destacando o Atlântico Sudoeste

As correntes oceânicas, que apresentam diferentes características físicas (temperatura e salinidade), são capazes de afetar as condições dinâmicas e termodinâmicas da atmosfera (PEZZI et al., 2006). Próximo a costa sul do Brasil, ocorre um grande contraste termal entre as massas d’água da Corrente do Brasil (águas aquecidas) e das Maldivas (águas frias), denominada Confluência Brasil-Malvinas (CBM).

Esta região foi estudada por Pezzi et al. (2005), no qual observaram que na ausência de frentes frias e ciclones na região, a CBM é capaz de alterar as condições da instabilidade da camada limite atmosférica (Figura 3) nas regiões adjacentes. As águas mais aquecidas, destacadas em vermelho na Figura 3, são as principais responsáveis por alterar a intensidade da magnitude do vento (PEZZI et al., 2005), impactando na geração hídrica principalmente nos meses de inverno nas bacias do Uruguai, Paranapanema e parte do Paraná.

Figura 3: Temperatura da superfície do mar (cores) e vetores de vento no dia 2 de novembro de 2004. Extraído de Pezzi et al. (2005).

Alguns estudos que avaliaram o impacto da TSM do oceano Atlântico Sudoeste no padrão de precipitação no Sul do Brasil e no Uruguai, destacaram que anomalias positivas (negativas) de TSM estão associadas com anomalias negativas (positivas) de precipitação nestas regiões, principalmente nos meses de abril a junho, período em que as condições de TSM do Atlântico Sudoeste contribuem mais significativamente em comparação com outros tipos de oscilações, como o próprio El Niño (DIAZ et al., 1998).

A Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS), um sistema de alta pressão semipermanente no Atlântico Sul, localizada em torno de 30 graus de latitude, influencia as condições de tempo e clima da AS devido ao seu padrão de circulação atmosférico. No inverno, a ASAS está mais intensa e próxima da América do Sul, podendo interferir na entrada e desenvolvimento de sistemas frontais no Sul e Sudeste. Já no verão, A ASAS se afasta da América do Sul e sua circulação é importante para o transporte de umidade do oceano, dando condições para a manutenção da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), um dos principais sistemas meteorológicos do período úmido no Centro-Sudeste brasileiro (BASTOS e FERREIRA, 2000).

Próximos meses

O mês de fevereiro foi marcado pelo aquecimento da porção sul do Atlântico (costa do extremo Sul da América do Sul) e esse aquecimento foi responsável por enfraquecer o gradiente de TSM que favorecia o avanço de frentes frias no Sul do país. Por outro lado, as águas próximas à costa do Sudeste brasileiro, que sofreram redução da TSM, favoreceram a formação de ZCAS.

Para o mês de março, a tendência é que este padrão de TSM se mantenha, favorecendo a convergência de umidade entre o Sudeste e o Nordeste brasileiro, mas com aumento de precipitação no Sul do Brasil em relação ao mês de fevereiro.

O dipolo do Atlântico Central se mantém na fase positiva, ou seja, a ZCIT está posicionada ao norte de sua posição histórica, mas ainda assim já começa a impactar a produção eólica na costa norte do Nordeste brasileiro, principalmente no estado do Ceará.

Autores: Meteorologistas Patrícia Madeira, Rafael Benassi e Vitor Hassan

Referências Bibliográficas

BARROS, V.; GONZALES, M.; LIEBMANN, B.; CAMILLONI, I. Influence of the South Atlantic convergence zone and SouthAtlantic Sea surface temperature on interannual summerrainfall variability in Southeastern South America. Theoretical and Applied Climatology, v. 67, n. 3, p. 123-133, 2000.

BASTOS, C. C.; FERREIRA, N. J. Análise climatológica da alta subtropical do Atlântico Sul. CEP, v. 12220, n. 110, p. 973-990, 2000.

CAVALCANTI, I. F. A. Tempo e clima no Brasil. Oficina de textos, 2016.

DIAZ, A. F.; STUDZINSKI, C. D.; MECHOSO, C. R. Relationships between precipitation anomalies in Uruguay and southern Brazil and sea surface temperature in the Pacific and Atlantic Oceans. Journal of Climate, v. 11, n. 2, p. 251-271, 1998.

HAARSMA, Reindert J. et al. Dominant modes of variability in the South Atlantic: A study with a hierarchy of ocean–atmosphere models. Journal of climate, v. 18, n. 11, p. 1719-1735, 2005.

PEZZI, L. P. et al. Ocean‐atmosphere in situ observations at the Brazil‐Malvinas Confluence region. Geophysical Research Letters, v. 32, n. 22, 2005.

PEZZI, L.; CALTABIANO, A.; CHALLENOR, P. Satellite observations of the Pacific tropical instability wave characteristics and their interannual variability. International Journal of Remote Sensing, v. 27, n. 8, p.1581-1599,2005.

REBOITA, M. S.; DA ROCHA, R. P.; AMBRIZZI, T.; SUGAHARA S.. South Atlantic Ocean Cyclogenesis Climatology Simulated by Regional Climate Model (RegCM3). Climate Dynamics, v. 35, n. 7-8, p. 1331-1347, 2009.

ROBERTSON, Andrew W.; MECHOSO, Carlos R. Interannual and interdecadal variability of the South Atlantic convergence zone. Monthly weather review, v. 128, n. 8, p.2947-2957,2000.

STERL, A.; HAZELEGER, W. Coupled variability and air-sea interaction in the South Atlantic Ocean. Climate Dynamics, v. 21, n. 7-8, p. 559-571, 2003.

O aumento de descargas elétricas em São José dos Campos e suas consequências

São José dos Campos, cidade situada no interior de São Paulo, vêm registrando um aumento no número de incidência de raios nos últimos 3 anos, de acordo com o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat/Inpe). Essa incidência costuma ser maior no verão, onde temos temperaturas mais elevadas e alta umidade, duas variáveis fundamentais para formação de nuvens de tempestade, que possuem grande desenvolvimento vertical. Dentro desta nuvem ocorrem diversos processos, físicos e químicos, que acarretam na eletrificação das partículas e consequentemente após o acúmulo de energia temos a ocorrência de raios.

Na imagem a seguir, obtida do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apresentamos o número de incidência de raios no Brasil em 2018/2019, onde vemos que São José dos Campos está no grupo marrom (153.900-269.400). Ressaltando que o Brasil é líder mundial em incidência de raios, com quase 78 milhões de descargas, nuvem-solo, por ano.

Em 2017 foram registrados 12.032 mil raios em São José dos Campos, esse número deu um salto em 2019 para 19.765 mil. Estes raios costumam acompanhar grandes tempestades e os problemas que elas trazem, não só para São José dos Campos, mas para qualquer lugar suscetível à ocorrência, são inúmeros. Dentre eles temos desastres naturais severos, como deslizamento de encostas e barragens, inundações, tombamento de árvores, quedas de energia e mortes. Isso pode ser observado em notícias como:

Neste evento foi necessário a realização de uma força-tarefa com mais de 120 funcionários para retirar cerca de 40 árvores caídas em diversos lugares, atrapalhando o trânsito, causando danos públicos e privados, além disso, 11 dessas árvores caíram em redes elétricas, prejudicando o fornecimento de energia em alguns bairros.

Dada a gravidade do tema, é de suma importância o monitoramento destas tempestades, para que tanto empresas, principalmente as que possuem operações ao ar livre, quanto a população possam ser alertadas com antecedência, e assim, possam realizar medidas preventivas, evitando acidentes que antes não seriam possíveis, por falta de informação.

O SMAC (Sistema de Monitoramento e Alertas Climatempo) tem ajudado diversos setores do mercado a se prevenirem nesse sentido, sendo uma plataforma completa com dados de previsão do tempo e monitoramento meteorológico em tempo real, pois está conectada a milhares de sensores de última geração e possui acesso a cerca de 7 mil estações espalhadas pelo território brasileiro, com o intuito de enviar alertas para as empresas, diante de eventos severos do tempo que impactam suas atividades.

Mais notícias com relação a este tema são encontradas nos links:

https://www.ovale.com.br/_conteudo/2017/09/nossa_regiao/18803-nova-tecnologia-faz-mapeamento-da-incidencia-de-raios-na-rmvale.html
https://www.meon.com.br/noticias/rmvale/sao-jose-dos-campos-tem-aumento-de-44-na-quantidade-de-raios
https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2018/11/23/chuva-forte-derruba-arvores-e-provoca-estragos-em-sao-jose-sp.ghtml

Os dados e estatísticas de raios mencionados na matéria são provenientes do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat/Inpe)

Por Jéssica Mendes, meteorologista da Climatempo.

Ventos a favor: como a meteorologia pode mudar o uso da energia no Brasil

Com proporções continentais e mais de 200 milhões de habitantes, o Brasil tem um alto consumo de energia. Grande parte dela proveniente de usinas hidrelétricas, que de acordo com a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), atualmente, 60% do total da energia consumida no país vêm dessa fonte. Todavia, esse cenário caminha para uma importante mudança. Segundo dados do Grupo BP, até 2040 haverá um salto no consumo de energias renováveis (com foco nas energias solar e eólica): um crescimento de 173%, chegando as 112 milhões de toneladas equivalentes de petróleo.

Visto este cenário, as novas demandas crescentes irão exigir bastante dos recursos energéticos brasileiros, e a inovação fará parte da rotina diária das empresas deste segmento. Um bom exemplo disso, é a implementação de parques eólicos Offshore. Em alto mar, os ventos tendem a ter uma velocidade superior e mais constante em relação ao continente, o que implica na maior geração de energia utilizando uma mesma turbina. Além disso, para países como o Brasil, onde importantes centros de cargas estão localizados próximos à costa, o projeto Offshore se torna ainda mais vantajoso.

Porém, o motivo da participação ainda modesta de eólicas Offshore no mundo, são em sua grande maioria voltadas para causas ambientais, onde ondas, tempestades e até mesmo a água salgada causam grandes transtornos durante a instalação e manutenção dos aerogeradores. Por isso, um monitoramento de tempo e mar se tornam imprescindíveis no planejamento da melhor janela para essas atividades. Ademais, a união da norueguesa StormGeo com a Brasileira Climatempo pode garantir um futuro próspero para este novo projeto.

Por outro lado, não existe dúvida de que a ocorrência de tempestades severas e sua influência no bolso de empresas de geração, distribuição e até mesmo de transmissão de energia são significativas. Por exemplo, a interrupção da transmissão de energia elétrica pode causar multas na ordem de milhares de reais por minuto interrompido, e, muitas vezes, essas interrupções podem estar associadas a ocorrência de raios, ventos fortes e até mesmo queimadas. Nesse caso, um monitoramento preciso para a faixa de servidão da linha pode garantir uma antecedência preciosa para mobilização da equipe de manutenção em lugares estratégicos de acordo com a previsão de tempo severo.

Nos próximos anos, a inovação estará cada vez mais presente no mercado energético brasileiro, em um mercado onde água, vento e sol geram receita o bom planejamento meteorológico se tornará um grande divisor de águas para as empresas produzirem mais com menos!

Por Vitor Hassan, meteorologista da Climatempo.

Geração eólica em crescimento: Os dados de hoje serão a receita do amanhã!

Como gerar mais com menos? A geração de energia renovável vem ganhando força ao longo dos últimos anos, segundo dados da EPE – Março/2020, o Brasil já conta com mais de 600 parques eólicos implantados, representando o sétimo maior mercado de instalações onshore do mundo. No balanço anual, a Figura 1 mostra comparativamente a oferta (MW) de projetos cadastrados de cada fonte, onde se destaca a crescente participação das fontes eólicas e solar ao longo dos últimos anos.

Figura 1: Participação de cada fonte nos leilões – Percentual da capacidade dos projetos cadastrados. Fonte: EPE – Março/2020

Nota-se que a fonte de geração eólica começou a ganhar destaque desde 2007, atingindo seu ápice em 2013, com 60% da participação. Por outro lado a massa de dados meteorológicos acompanha esse mesmo crescimento, com mais de 800 estações anemométricas instaladas para avaliação do recurso eólico no Brasil (Figura 2). Com essa massa crescente de dados pontuais de sensores anemométricos a construção de um banco de dados robustos começa a ser possível, o que facilita estudos e pesquisas na área de meteorologia, aplicado ao setor eólico. 

Porém, quais sistemas meteorológicos foram responsáveis pelo comportamento do vento em períodos específicos no passado? 

Ao analisar a Figura 2, nota-se que a maior parte dos projetos eólicos habilitados entre 2009 e 2019 está concentrada na Região Nordeste do Brasil (NEB), muito relacionado com características atmosféricas favoráveis para geração de energia eólica nesta região, principalmente no segundo semestre do ano. Portanto a caracterização dos fenômenos meteorológicos nessas regiões é extremamente importante para a criação de cenários ótimos de produção. Essa análise de dados e de fenômenos meteorológicos não só favorecem a melhor interpretação sazonal do comportamento do vento ao longo dos anos, como também pode ajudar no planejamento futuro de tomada de decisão para este setor.

Figura 2: Localização das torres anemométricas dos projetos habilitados, de 2009 até 2019. Adaptado: EPE – Março/2020.

Mas como planejar o futuro a partir destes dados? 

As incertezas neste processo começam desde o inicio dos projetos eólicos, relacionadas à produção de energia em determinado local que irá afetar na garantia física dos empreendimentos. Após o parque eólico já em operação, ter informações precisas sobre a intensidade e direção do vento para os próximos dias se torna um diferencial operacional, não só para o planejamento de geração ao longo dos dias, como também para o planejamento dos serviços de manutenção nas melhores janelas meteorológicas. 

Pensando nisso a Climatempo vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos metodologias específicas para melhorar a previsão do vento em diversos parques eólicos do Brasil. Além de caracterizar o comportamento de sistemas meteorológicos atuantes em determinada região e seu impacto sazonal na geração eólica, também é utilizada uma metodologia de pós-processamento para correção das previsões de vento baseada nos dados observados nas torres anemométricas dos parques eólicos. As Figuras 2 e 3 ilustram o resultado final deste processo com a validação, correção e previsão para os próximos dias.

Na parte superior:  Intensidade e direção do vento observado (linha sólida preta) e previsto (linha sólida vermelha) das duas últimas semanas e previsão da próxima semana (Linha tracejada vermelha). 
Na parte inferior – Média diária da intensidade do vento observado (linha sólida vermelha), erro absoluto máximo (sombreado claro) e erro absoluto (sombreado escuro).
Figura 3: Rosa dos ventos – Direção predominante dos ventos para as duas últimas semanas e por último a direção predominante prevista para a próxima semana.

Como citado anteriormente, um ponto importante é a caracterização dos principais fenômenos meteorológicos que podem causar perturbações no comportamento dos ventos na região do parque eólico. Por exemplo, no NEB se destacam a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) que é um importante fenômeno causador de chuva na região e que pode impactar na perturbação regional dos ventos, assim como, os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCANs) que dependendo de sua posição podem impactar de forma negativa na geração eólica em regiões específicas do NEB. Já na região Sul do Brasil, podemos destacar as frentes frias que podem apresentar um padrão mais oceânico ou continental, os Sistemas Convectivos de Mesoescala (SCM), dentre outros. 

Ao analisar e caracterizar a influência desses fenômenos na geração eólica durante os últimos anos se torna mais fácil indicar semanas que poderão produzir mais ou menos de acordo o comportamento da atmosfera, principalmente em escala sinótica. A Figura 4 ilustra a variação na intensidade do vento e o fenômeno responsável por tal variação para um parque eólico no Sul do Brasil.

Figura 4: Variação na intensidade do vento e sua relação com os fenômenos meteorológicos.

Por fim, nos resta o planejamento a longo prazo, ou seja, como será a tendência de produção eólica até o final do ano? Será que teremos uma tendência de produção positiva no segundo semestre? Para responder estas perguntas e outros grandes desafios do setor eólico, a Climatempo conta com uma equipe de pesquisadores localizados em nosso laboratório de P&D no Parque Tecnológico de São José dos Campos. Afinal, em um mundo onde o vento é receita, as empresas deste setor precisam ter visão de longo prazo para planejar suas ações financeiras e otimizar seu crescimento.

Por Meteorologista Vitor Hassan – Msc. em Ciências Atmosféricas

Como gerar mais com menos?

Pensando nisso a Climatempo vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos metodologias específicas para melhorar a previsão do vento em diversos parques eólicos do Brasil. Além de caracterizar o comportamento de sistemas meteorológicos, também é utilizada uma metodologia de pós-processamento para correção das previsões de vento baseada nos dados observados dos parques eólicos. As Figuras ilustram o resultado final deste processo com a validação, correção e previsão para os próximos dias.

E o planejamento à longo prazo, ou seja, como será a tendência de produção eólica até o final do ano? Será que teremos uma tendência de produção positiva no segundo semestre? Para responder estas perguntas e outros grandes desafios do setor eólico, a Climatempo conta com uma equipe de pesquisadores localizados em nosso laboratório de P&D no Parque Tecnológico de São José dos Campos.

Figura 1: Análise comparativa

Na parte superior – Intensidade e direção do vento observado (linha sólida preta) e previsto (linha sólida vermelha) das duas últimas semanas e previsão da próxima semana (Linha tracejada vermelha). 

Na parte inferior – Média diária da intensidade do vento observado (linha sólida vermelha), erro absoluto máximo (sombreado claro) e erro absoluto (sombreado escuro).

Figura 3: Rosa dos ventos – Direção predominante dos ventos para as duas últimas semanas e por último a direção predominante prevista para a próxima semana.
Figura 4: Os histogramas mostram a frequência da distribuição da velocidade do vento durante as últimas duas semanas e o previsto para a próxima semana.

Para saber mais informações entre em contato com nosso Head do setor elétrico:
Vitor Hassanvitorhassan@climatempo.com.br

Acerto na Previsão do Tempo? Um case real para distribuição de energia.

Qual a porcentagem de acerto da sua previsão? Esta é uma pergunta frequente em reuniões com grandes empresas do setor elétrico. Por isso, resolvemos escrever este artigo para mostrar sim a importância deste índice de acerto, mas também ressaltar que a relação construída entre os seres humanos é muito mais importante. Ou seja, o trabalho conjunto entre os meteorologistas, engenheiros e técnicos de operação tornam a leitura de um modelo meteorológico algo mais simples, facilitando e fazendo sentido a sua tomada de decisão diária.

A união dessa relação humana com plataformas operacionais tecnológicas irá fazer a diferença a médio e longo prazo. Algumas variáveis meteorológicas possuem menor acurácia nas saídas numéricas dos modelos atmosféricos, visto que são resultados de combinações de diversos mecanismos que ocorrem nos balanços da atmosfera.  Como é o caso das variáveis chuva e vento, que possuem grande variação em sua distribuição espacial. 

Dessa forma, acertar uma previsão de chuva e vento pontualmente se torna um desafio muito maior. No geral, os modelos atmosféricos apresentam uma tendência de aumento/diminuição dessas variáveis e é nesse momento que o meteorologista entra como uma peça fundamental na análise e nos processos de consultoria e planejamento operacional. Um caso muito interessante vem ocorrendo com uma grande empresa do setor de distribuição de energia no estado do Rio de Janeiro. Segue abaixo uma breve revisão de um caso que ocorreu no dia 01/03/2020.

TEMPESTADE SEVERA 01/03/2020 – Norte do RJ

Para iniciar a análise, voltemos ao dia 29/02/2020, quando a equipe de operação da distribuidora de energia observou a imagem da previsão do acumulado de chuva para o dia seguinte (01/03/2020), apresentado na Figura 1. O modelo utilizado na plataforma operacional da Climatempo (SMAC) indicava acumulado diário de chuva em torno de 60 a 80 mm em grande parte da região norte do RJ. Isso deixou toda a equipe da distribuidora em alerta. Foi realizado o contato com a equipe de meteorologistas da Climatempo com um dia de antecedência e o planejamento de mobilização das equipes de manutenção, entre outras decisões estratégicas, foi iniciado.

Figura 1: Previsão de acumulado de chuva enviado com um dia de antecedência em relação à ocorrência da tempestade na região norte do RJ.

Na manhã de domingo (01/03/2020), ambas as equipes (Climatempo x Cliente) acordaram com grande expectativa em relação a previsão do tempo que já vinha sendo informada desde o dia anterior. No início do dia, o boletim meteorológico atualizado manteve a previsão de tempo severo para o período da tarde, confirmando assim, a previsão informada anteriormente, conforme Figura 2.




Figura 2: Boletim meteorológico indicando possibilidade de tempo severo na parte da tarde para a região norte do Estado.

No período da tarde, a Climatempo, através do monitoramento nowcasting, realizou o envio de alertas inteligentes para as áreas mais críticas. Os pontos monitorados foram mudando de cor na plataforma de acesso, de acordo com o risco meteorológico que se aproximava. Concomitantemente, os alertas enviados pelo e-mail e aplicativo já estavam sendo direcionados às equipes responsáveis, como pode ser observado na Figura 3.


Figura 3: Alertas meteorológicos enviados por e-mail/APP para a equipe de planejamento de operação e tempo real na tarde do dia 01/03/2020.

No decorrer da tarde, a tempestade chegou ao Norte do Estado do Rio e os danos foram grandes. Várias árvores caídas, postes e linhas de alta tensão interrompidas (Figura 4 e 5). Mas o mais relevante foi a recuperação e manutenção do sistema elétrico com rapidez e eficácia, garantindo o menor tempo possível de clientes-hora interrompidos, com um menor custo operacional de pessoal e maior compromisso com toda a população do norte do Estado.

Figura 4: Chuva e vento forte em Campos – RJ na tarde do dia 01/03/2020. Fonte: Filmagem amadora.
Figura 5: Galhos caídos sobre a rede elétrica devido a força dos ventos na tarde do dia 01/03/2020 em Campos – RJ. Fonte: Equipe de manutenção.

Após a passagem dessa tempestade, através dos históricos disponíveis na plataforma SMAC, foi possível observar os detalhes de onde houve a maior ocorrência de raios, sua intensidade, polaridade e distância das subestações e redes de tensão mais próximas, de acordo com as Figuras 6 e 7. Tais dados ajudam a compor relatórios sobre o evento, facilitando a interpretação do ocorrido para a equipe, contribuindo também para a criação de novas medidas a serem tomadas diante de novas intempéries.

 Figura 6: Ocorrência de raios em grande parte do Norte do RJ após a passagem da tempestade na tarde do dia 01/03/2020.
Figura 7: Ocorrência de descarga atmosférica a 2 km da torre de alta tensão.

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Por Vitor Hassan, meteorologista da Climatempo.

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